“Workaholic” a que custo?

08 julho, 2021 |

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Sabrina Abreu é jornalista pós graduada em semiótica pela UFMG, escritora com cinco livros publicados e speaker no TEDx. No começo de sua carreira, associava sucesso e autoestima ao trabalho e se entregou completamente a sua vida profissional. Mas qual o custo de ser um “workaholic”, ou seja, uma pessoa viciada em trabalho? 

A gente vive num esquema industrial, a gente é pressionado de todos os lados, de você mesmo, com o outro, com o seu corpo, e algum lado vai estourar. E geralmente é no corpo e na mente da gente.

Além disso, após se deparar com o diagnóstico de viciada em trabalho e ansiosa, Sabrina Abreu ressignificou sua trajetória profissional através da psicanálise. Em conversa ao Zencast, o podcast do Zenklub, ela divide a sua história e inspira quem quer mudar de vida. Leia o artigo para saber mais. 

O que é ser um workaholic?

Você já deve ter conhecido, ou é, um workaholic. Ser workaholic é colocar a vida profissional como prioridade absoluta em sua vida. Além disso, isso torna a pessoa dependente do trabalho, tendo sua autoestima e autoconfiança completamente conectadas com o trabalho. Essas pessoas, costumam, também, a se sentir motivadas e gratificadas apenas quando tem conquistas no trabalho. Esse era o caso de Sabrina:

Eu passei muito tempo negligenciando meus desejos imediatos por causa da carreira.

Então, o problema é que ser workaholic tem implicações diretas com a saúde emocional: algumas dessas pessoas estruturam sua vida em torno da carreira e, quando não vivem mais aquele ritmo estressante e acelerado da rotina típica de um “viciado em trabalho”, elas sentem-se infelizes ou incompletas. 

Além disso, pessoas que se dedicam inteiramente à vida profissional tendem a despriorizar o seu autocuidado em detrimento do trabalho. Isto é, deixam de ter pausas na rotina, de descansar, despriorizam seus hobbies, visitas a amigos e à família e, por isso, não fortalecem relações, o que afeta profundamente a felicidade de qualquer indivíduo.

Eu tava perdendo festas de família, deixando de dormir, almoçando no táxi, enfim, tudo isso para contar que as pessoas me incentivavam a ser assim, na ingenuidade, tipo “ai, como você é produtiva e ocupada” e aí pra resolver isso, muita psicanálise. Tá errado isso, eu tô viciada, vamos diminuir.

Ser “workaholic” está ligado a vários transtornos mentais

Cientistas descobriram que alguns distúrbios psiquiátricos aparecem muito mais em quem é viciado em trabalho. Viver sob estresse constante é realmente viciante, a nível químico. E, as grandes cargas de estresse podem ser precursoras de alguns transtornos como: TDAH, ansiedade, doenças psicossomáticas, síndrome do pânico, TOC e até depressão.

Comportamentos excessivos (trabalhar 12h por dia, aos domingos, e outros sinais) e alguns sintomas são o sinal vermelho do corpo para a mente. Dentre eles:

Entre tantos motivos, a maior razão, em muitos casos, é a fuga de problemas íntimos ou familiares. Sabrina conta o que aconteceu com ela:

Eu cheguei no ápice do estresse quando eu tinha uma entrega semanal. E ao mesmo tempo fazia um livro. Aí eu comecei a ter umas crises de choro desesperadoras, de tirar os cabelos, taquicardia e boca seca. Mas eu amava o que eu fazia…Um dia eu tive uma perda auditiva de um lado só, e o médico constatou que era por estresse. E aí conversando com um psicanalista eu fui me entendendo. É mais fácil trabalhar do que enfrentar certos problemas pessoais.

Como reconhecer um workaholic em si mesmo ou no outro

Além disso, como saber se estamos equilibrando direito o trabalho em nossas rotinas? É muito fácil normalizar o excesso de trabalho e por isso é tão difícil reconhecer os sinais deste descontrole.

Alguns deles são:

  • Fazer as refeições trabalhando;
  • Conferir e-mails de trabalho antes e depois do expediente;
  • Evita ou deixa de tirar férias;
  • Trabalha também nos feriados;
  • Tem dificuldade de concentração;
  • Sente ansiedade com facilidade;
  • Sua atividade favorita é trabalhar;
  • Tem dificuldade de relaxar;
  • Trabalha em ambientes inadequados e variados, como carro, banheiro, etc.

Observar esse tipo de comportamento é o primeiro passo rumo a uma melhora. Além deste olhar, desenvolver autoconhecimento é fundamental. O processo pessoal de autoconhecimento irá permitir conquistar mais autonomia, maior entendimento do que agrada ou não, impor  limites, alcançar os objetivos e melhorar o bem-estar.

Sabrina Abreu pôde compreender o que acontecia consigo mesma após pedir ajuda médica:

Tenho transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Quando fui falar com o médico, ele falou algo que ficou na minha mente pra sempre, que ajudou esse despertar, que foi: “que coisa triste que tudo que você tá falando comigo, você quer uma solução pra você conseguir entregar todas as coisas.

Como é o tratamento de um workaholic (viciado em trabalho)

O workaholic precisa reconhecer sua condição e querer ajuda para mudar. Muitas vezes, um viciado em trabalho acaba negligenciando a si mesmo e fica cada vez mais difícil reconhecer a necessidade de mudar. Além disso, em outros casos, mesmo depois de perceber a importância de mudar os hábitos e pedir ajuda, a ruptura é tão grande que é comum sentir uma sensação de vazio existencial. É aí que o autoconhecimento ajuda, como conta Sabrina:

Eu só pensava que isso uma hora ia acabar. Que eu ia tirar férias e isso ia acabar. E eu achava que assim que eu conseguisse diminuir a marcha eu ia conseguir tudo, mas eu tava tão desacostumada a lidar com o ócio, com o presente, que eu não sentia felicidade imediata, eu me sentia fora de lugar, uma certa angústia, assim. Eu não sabia exatamente o que eu iria ou queria fazer naquela hora, e como dar vazão a esse sentimento imediato.

Então, o tratamento envolve a psicoterapia, que consiste em desenvolver inteligência emocional e autoconhecimento, o deixando mais apto a controlar os impulsos, estar atento aos níveis de estresse, entre outras habilidades que serão desenvolvidas ao longo do processo.

Além disso, descobrir hábitos que o façam relaxar, investir em práticas de respiração e meditação, e sempre que puder faça terapia para dar uma pausa no mundo e olhar para dentro de si é essencial em casos de pessoas workaholic.

Convidado

Sabrina Abreu

É jornalista pós graduada em semiótica pela UFMG, escritora com cinco livros publicados e speaker no TEDx.

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