Para algumas pessoas – especialmente para as LGBT – o isolamento social pode significar ficar mais exposto ou vulnerável psicologicamente. A falta de teto seguro e o aumento da LGBTfobia familiar deixa essa população ainda mais desamparada ante o confinamento, e as consequências na saúde emocional se mostram inevitáveis.

Nos últimos anos, tivemos avanços importantes no combate ao preconceito, mas a história da maior parte dos LGBT ainda é marcada por violência familiar e profissional. Isso por que não é toda vivência familiar que é positiva, e muitas pessoas não têm outras opções a não ser voltar para a casa dos familiares.

Conversamos com psicólogo e mestre em terapia sexual do Zenklub, Guilherme Gomes, que compartilhou ensinamentos preciosos quando falamos do autocuidado da população LGBT no contexto da pandemia e isolamento social. Leia a seguir:

VOCÊ E SUA FAMÍLIA PODEM COEXISTIR EM HARMONIA MESMO EM CASOS DE LGBTFOBIA FAMILIAR

A “cultura” da sua família pode não ser a sua “cultura” – e tá tudo bem. Quando não pode se comportar da maneira que se deseja ou se expressar como se realmente é, qualquer acolhimento tem uma probabilidade muito baixa de ser sentido como verdadeiro, autêntico, mas, sim, para um personagem que se é obrigado performar.

Pode-se compreender que o “voltar para o armário” seria ser obrigado ou obrigada a se comportar de forma correspondente a como aquele contexto que circunscreve através de punições um modelo de existência, neste caso, relacionado a um padrão heteronormativo.

De fato, espaços familiares repressores são um contexto para que a pessoa apresente comportamentos de fugir, evitar ou tentar se defender das violências que pode sofrer.

Proteger-se dessas tensões é necessário. Entretanto, tentar não se fechar totalmente, estar aberto(a) às interações afetivas possíveis pode diminuir o desconforto. As possibilidades são variadas, cozinhar, jogar um jogo, falar sobre outros assuntos, assistir filmes, seriados entre outras possibilidades.

Não é necessário se identificar totalmente com uma pessoa para se estabelecer um laço afetivo, o simples fato de estimular o que se tem em comum pode ocupar o espaço das divergências.

Vejo que no isolamento muitos laços familiares estão sendo ressignificados. Contudo, para aqueles que estão em um contexto com LGBTfobia familiar, é muito importante buscar apoio e ter amigos confiáveis virtualmente. Se possível, manter o seu espaço com suas características, música, decoração entre outras possibilidades que represente quem se é.

UMA COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA PODE TE EMPODERAR CONTRA A LGBTFOBIA FAMILIAR

A família representa laços afetivos. Geralmente, é com ela que aprendemos a nomear o que sentimos e o que compreendemos de mundo. Tanto que, é compreensível o sentimento de culpa quando o que se sente é incongruente com aquilo que é condicionado como “certo”. Há dinâmicas familiares nas quais a pessoa não percebe que está em uma condição de violência, pois sempre funcionou assim. Nesses casos, a LGBTfobia familiar pode ter sido normatizada.

Uma comunicação que fale de si, de seus próprios sentimentos, é sempre mais recomendada, em vez de colocar o outro como causador, mesmo que muitas vezes seja mesmo. Assim, pode-se evitar conflitos que se intensifiquem e tornem-se violências mais graves como a LGBTfobia. Bem como pode promover uma maior empatia por parte daquele ou daquela que ouve.

Contudo, sabemos que isso não é possível em todas as famílias. Às vezes, não será possível com todos os integrantes da família, talvez só com o irmão, a irmã, a mãe ou outra pessoa com quem convive, mesmo assim é importante fazer com que sua voz chegue em alguém, até mesmo para ajudar a maximizá-la, ser ouvida e considerada.

LGBTFOBIA FAMILIAR NÃO PODE SER UM PADRÃO

O relacionamento familiar deve representar compreensão. A dinâmica familiar precisa ter afeto, compreensão, entendimento, respeito e apoio. É importante lembrar que agressões físicas de qualquer natureza, psicológicas, como ofensas, discriminações, depreciações entre outras, são, sim, violências e devem ser denunciadas. Cabe ressaltar que LGBTfobia é crime.

Se não se tem força para fazer uma denúncia da LGBTfobia familiar durante o isolamento, busque primeiramente redes de apoio, de um especialista, pessoas e instituições que possam lhe acolher e fortalecer. Mesmo porque, neste cenário de isolamento não basta denunciar, é necessário ter um lugar de acolhimento.

COM APOIO, ISSO VAI PASSAR

Um evento traumático neste contexto pode se desdobrar em várias possibilidades de traumas ou transtornos. O medo em se relacionar com outras pessoas é um exemplo que advém da LGBTfobia familiar. O processo de recuperação dependerá de vários fatores pessoais e sociais.

Interações sociais no pós-pandemia poderão ser essenciais para o processo de recuperação. Se possível acessar uma ajuda profissional, pode acelerar este processo. Recuperar aos poucos suas rotinas, atividades de lazer, ver pessoas que se sente bem, atividades laborais, relações afetivossexuais, entre outras, pode favorecer a recuperação.

Ainda, acredito e espero que este contexto de isolamento faça com que nós valorizemos mais as interações sociais e afetivas que temos. Espero que possamos aprender a ser mais empáticos e respeitosos com a vida, principalmente às população que são minorizadas, como a LGBTQIA+. Se ainda sim não houver humanização, respeito e conscientização, é importante lembrar, LGBTfobia é crime!

COMO O ZENKLUB PODE TE AJUDAR

Pra você cuidar ainda mais da saúde emocional, o Zenklub pode ser uma ótima alternativa. Com apoio, você adquire mais autoconhecimento para se tornar regente do seu próprio caminho, e pode construir relações mais sólidas com aquelas pessoas que fazem diferença na sua vida.

Mais especificamente, para questões de gênero, orientação e LGBTfobia familiar, um sexólogo pode te ajudar. Saiba mais sobre esse tipo de terapia aqui. Aqui e no app você também encontra conteúdos especializados e o Zencast, podcast sobre saúde emocional, que são ferramentas gratuitas que ajudam e muito.

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