A automutilação é o ato de ferir o próprio corpo de maneira intencional, normalmente como uma tentativa de aliviar uma dor emocional intensa e uma forma de lidar com sentimentos como culpa, angústia, raiva ou desespero.
Entre os comportamentos mais comuns estão cortes, arranhões, batidas autoinfligidas e queimaduras, além de outras formas de autolesão.
A automutilação não deve ser tratada como falta de controle, mas como um sinal de sofrimento psíquico, que deve ser compreendido com empatia.
Neste artigo, você vai entender as possíveis causas, os sinais e os tratamentos mais adotados.
O que é automutilação?
Automutilação é o ato de causar intencionalmente uma lesão no próprio corpo. A maneira mais comum envolve cortes, arranhões, queimaduras e batidas autoinfligidas também são formas de autolesão.
As lesões normalmente são percebidas em áreas que podem ser escondidas pelas roupas, como antebraços, barriga e coxas.
Com a repetição dessa prática, podem aparecer lesões em diferentes estágios de cicatrização e padrões de cicatrizes.
De modo geral, o objetivo não é morrer, mas aliviar sentimentos como culpa, angústia, estresse intenso e raiva. Mesmo assim, esse comportamento é sério e deve ser acompanhado por um profissional.
Automutilação é uma doença?
A automutilação está comumente associada a dificuldades de regulação emocional, mas não deve ser considerada somente uma consequência de um transtorno mental.
Esse quadro pode ter relação com depressão, transtornos de personalidade, transtorno bipolar ou mesmo transtornos alimentares, mas também pode surgir sem outro diagnóstico psiquiátrico.
No DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o transtorno de autolesão não suicida é apresentado na seção de condições que ainda precisam ser mais estudadas.
Ou seja, que nem todo episódio de automutilação é considerado, por si só, um transtorno mental.
Por que as pessoas se cortam?
Pessoas que provocam autolesões podem buscar uma forma urgente de lidar com frustrações e emoções intensas. Isso ocorre porque a dor física desvia momentaneamente a atenção do sofrimento emocional, trazendo uma sensação breve de alívio.
Uma das explicações biológicas está relacionada à possível liberação de endorfinas, substâncias produzidas pelo organismo que ajudam a reduzir a dor e podem gerar uma sensação de bem-estar, fazendo com que a tensão emocional diminua após a lesão, embora tenha efeito passageiro.
Após a automutilação, é comum surgirem sentimentos de vergonha, culpa e arrependimento. Quando a angústia retorna, a vontade de se autolesionar pode surgir novamente.
Fatores de risco e vulnerabilidades
A automutilação não tem uma origem única e pode estar ligada a associada a uma série de fatores, como:
- Traumas e violência: abuso físico, emocional ou sexual e experiências de negligência, que podem prejudicar a autoestima, a segurança e a regulação emocional.
- Relações sociais: bullying, falta de apoio familiar ou social, rejeição sobretudo em aspectos associados à identidade de gênero e orientação sexual.
- Imagem corporal: insatisfação intensa com o próprio corpo e sofrimento relacionado à aparência.
- Ambiente familiar: conflitos recorrentes e abuso de álcool ou outras drogas pelos pais ou responsáveis.
- Eventos estressantes recentes: fim de relacionamento, morte de uma pessoa próxima ou mudanças significativas na rotina.
A automutilação pode ser considerada um vício?
Embora não seja classificada como vício químico, a automutilação funciona em um ciclo repetitivo, principalmente porque proporciona alívio emocional imediato.
Quando a angústia é aliviada após o ato, o cérebro passa a relacionar a autolesão a uma forma rápida de reduzir o sofrimento, o que aumenta as chances de repetição do comportamento.
Quando o sofrimento emocional retorna, a pessoa costuma sentir novamente a necessidade de se autolesionar, criando uma relação de dependência emocional com a prática, mesmo que o ato não seja reconhecido de maneira formal como um vício.
Motivações emocionais que levam à autolesão
As motivações emocionais que levam à autolesão podem variar de uma pessoa para outra. Em muitos casos, a automutilação gera uma sensação instantânea de controle sobre o próprio corpo, sobretudo quando a vida parece turbulenta ou desafiadora.
- Reduzir sentimentos: como raiva, culpa, ansiedade ou frustrações;
- Autopunição: ao castigar-se por erros que acredita ter cometido;
- Comunicação do sofrimento: mostrar, de forma não verbal, que precisa de ajuda ou que algo está errado.
Diferenças entre automutilação e suicídio
A automutilação e a tentativa de suicídio são comportamentos com intenções diferentes. De modo geral, quem pratica a autolesão tenta aliviar ou expressar uma dor emocional, mas sem o desejo de morrer.
Por outro lado, a tentativa de suicídio envolve a vontade ou a intenção de causar deliberadamente a própria morte.
Contudo, isso não significa que a automutilação seja menos grave. Isso porque, há estudos longitudinais apontam que pessoas que se machucam de maneira intencional têm maior rchances de tentar suicídio no futuro.
Automutilação na adolescência
A automutilação pode começar na adolescência, uma fase marcada por mudanças emocionais, físicas e sociais.
Nesse período, é comum a ocorrência de bullying, conflitos familiares, dificuldades para expressar o sofrimento e sensação de isolamento, que podem aumentar o risco de autolesão.
O cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, o que pode tornar a regulação de emoções intensas e impulsos mais difíceis durante as crises.
Por isso, sentimentos intensos e frustrações costumam ser mais difíceis de regular em momentos de crise, mas isso não quer dizer que a automutilação seja uma consequência natural da adolescência.
Automutilação em adultos
A automutilação não acontece somente na adolescência. Em adultos, esse comportamento também pode ocorrer e, normalmente, está associado a traumas antigos, como abuso, negligência, conflitos e dificuldades para lidar com estresse.
Muitas vezes, essa prática pode permanecer oculta por medo, julgamento ou vergonha. Além disso, o estigma de que a autolesão seria “coisa de adolescente” também costuma dificultar a busca por ajuda especializada, fazendo com que muitos adultos sofram em silêncio.
Vale destacar que, independentemente da idade, a automutilação deve ser tratada como uma questão séria. A avaliação psicológica ajuda a reconhecer os gatilhos e a desenvolver formas mais seguras de enfrentar o sofrimento.
Automutilação e a internet
Embora seja uma ferramenta que facilita o dia a dia, a internet também pode expor adolescentes e adultos a conteúdos que romantizam a automutilação ou a apresentam como uma maneira aceitável de aliviar o sofrimento.
Hoje em dia, existem comunidades virtuais que exibem ferimentos, ensinam práticas ou tratam a autolesão como algo normal, podendo estimular o comportamento.
Em um estudo com adolescentes internados, a maioria conheceu a autolesão antes de praticá-la, e a exposição a determinados métodos foi relacionada à repetição desses comportamentos.
Em grupos de adolescentes, a exposição ao comportamento de um colega pode influenciar outros jovens nos meses seguintes, sobretudo aqueles que já enfrentam sofrimento emocional.
O que leva alguém à automutilação?
A automutilação costuma estar associada a experiências de sofrimento acumuladas, como abuso físico, emocional ou sexual e negligência, que podem comprometer a autoestima, a sensação de segurança e a capacidade de lidar com emoções intensas.
Rejeição, bullying, conflitos familiares, isolamento e falta de apoio também são fatores que podem contribuir para esse comportamento.
Contudo, é importante ressaltar que esses fatores não determinam que uma pessoa irá se autolesionar, mas podem elevar o risco, principalmente quando a pessoa não tem um espaço seguro para expressar seus sentimentos.
Buscar ajuda profissional e conversar com pessoas de confiança pode ajudar a reconhecer a origem do sofrimento e encontrar maneiras mais seguras de enfrentá-lo.
Como identificar sinais de automutilação?
Os sinais de automutilação aparecem em partes do corpo normalmente cobertas pelas roupas e em mudanças de comportamento.
Sinais físicos
- Cortes, queimaduras ou feridas sem explicação clara;
- Cicatrizes repetidas e padronizadas;
- Uso de roupas compridas mesmo no calor.
Sinais comportamentais
- Isolamento aumentado;
- Longos períodos trancado no quarto ou banheiro;
- Posse de objetos cortantes sem motivo aparente;
- Mudanças bruscas de humor.
Além desses indícios, há alguns sinais de alerta que exigem atenção, como encontrar sangue em roupas, toalhas ou lixo, além de queda no rendimento escolar.
Diagnóstico da automutilação
O diagnóstico é feito a partir de uma avaliação clínica realizada por psicólogos ou psiquiatras por meio de relato dos episódios e fatores emocionais envolvidos.
O profissional analisa o histórico emocional, as circunstâncias em que os episódios ocorrem, a frequência dos episódios e a intenção do comportamento.
Além disso, possíveis transtornos associados e a presença de pensamentos suicidas também podem ser investigados para determinar o nível de risco e orientar o tratamento mais coerente.
Tratamento da automutilação
O tratamento da automutilação costuma ser definido após uma avaliação profissional, que considera os gatilhos, a função do comportamento e eventuais condições de saúde mental associadas.
Entre os métodos utilizados está a Terapia Comportamental Dialética (DBT), voltada ao desenvolvimento de habilidades de tolerância ao sofrimento, regulação emocional e resolução de conflitos, ajudando a reduzir os episódios de autolesão ou os pensamentos suicidas.
Além disso, o tratamento também pode envolver outras técnicas práticas, como adiar a ação, reconhecer o gatilho, praticar respiração e procurar uma pessoa de confiança.
Dependendo do caso, medicamentos podem ser usados para tratar transtornos associados.
Apoio da família nos casos de comportamento autodestrutivo
Acolhimento, afeto e compreensão são essenciais para apoiar uma pessoa que pratica automutilação. Antes de mais nada, é preciso validar a dor, reconhecendo que o sofrimento é real, mesmo que seja difícil entender o comportamento.
É importante esclarecer que validar não significa concordar com a autolesão, mas ouvir a pessoa sem julgamentos, demonstrando disponibilidade para ajudar e evitando críticas.
A automutilação não deve ser tratada como uma tentativa de “chamar atenção”. Em muitos casos, essa prática é uma maneira de comunicar um sofrimento que a pessoa não consegue expressar em palavras
Dessa forma, os familiares podem oferecer apoio e incentivar a busca por ajuda profissional.
O que não fazer ao lidar com a automutilação?
Algumas reações podem aumentar o medo, a culpa e o isolamento. Por isso, ao conversar com uma pessoa que pratica autolesão, é fundamental evitar:
- Minimizar o sofrimento: frases como “é só uma fase” tendem a fazer a pessoa se sentir incompreendida.
- Reagir com broncas: críticas podem dificultar ou até impedir o diálogo.
- Exigir promessas: pressionar a pessoa a prometer que nunca mais irá se machucar, pois isso pode aumentar a culpa e inibir pedidos de ajuda.
- Remover todos os objetos cortantes à força: a interrupção do acesso deve fazer parte de um plano de segurança definido com a pessoa e um profissional.
Em situações de risco imediato, o ideal é afastar os instrumentos de lesão e buscar atendimento médico de urgência.
Passos práticos e cuidado com o cuidador
Oferecer suporte para alguém que pratica a automutilação é importante, mas o cuidador também precisa de suporte psicológico.
O primeiro passo é reconhecer os próprios limites, evitando que fique sobrecarregado com culpa, medo e responsabilidade excessiva pelo o conforto e bem-estar do outro.
Acompanhar uma pessoa que se autolesiona pode provocar culpa, medo e desgaste emocional. Por isso, busque suporte psicológico para proteger a própria saúde mental e oferecer suporte de forma mais segura.
Prevenção da automutilação
A prevenção da automutilação envolve o fortalecimento dos recursos emocionais e criação de ambientes em que a pessoa possa se sentir segura para pedir ajuda.
Um dos principais fatores protetivos é a alfabetização emocional, que ensina a reconhecer, nomear e comunicar sentimentos como medo, raiva, frustração e tristeza.
É importante que famílias e escolas mantenham espaços de escuta sem julgamentos e observem quaisquer mudanças persistentes de comportamento.
Além disso, o combate ao bullying é fundamental. As escolas devem oferecer canais de denúncia, acolher as vítimas, orientar os familiares dos estudantes e agir diante de agressões presenciais ou virtuais.
Lembre-se de que a prevenção envolve ações contínuas e não somente medidas adotadas após uma crise emocional.
Quando buscar ajuda profissional para automutilação?
Busque ajuda profissional sempre que houver episódios de automutilação, mas existem sinais de alerta que merecem atenção imediata:
- Lesões graves;
- Aumento da frequência dos episódios;
- Uso de álcool ou outras drogas;
- Presença de pensamentos suicidas.
Nesses casos, procure atendimento de urgência e nunca deixe a pessoa sozinha.
A intervenção precoce é essencial para identificar os gatilhos, avaliar o risco e reduzir a repetição da prática. A automutilação não deve ser tratada como falta de controle, mas um sinal de sofrimento psíquico.
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