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Desde que fundei o Zenklub, em 2016, além de outras motivações, sempre pensei em como eu poderia ajudar pessoas que, assim como eu, decidiram sair de seu país de origem, para se aventurar em terras ainda não conhecidas. É preciso uma dose de coragem e de motivação para dar esse passo, afinal, não é apenas ficar longe fisicamente da família e dos amigos que está em jogo, a bagagem leva também saudade, medos e esperança de uma adaptação tranquila, diante de novas culturas e um novo idioma.

Eu me tornei um expatriado bem jovem, aos 20 anos, quando saí de Portugal após uma experiência de quase 2 anos morando sozinho, pois meus pais se mudaram com meus irmãos para outro país, e passei quase 1 ano na Áustria. Depois disso, vim para o Brasil, aos 22 anos, alternei um tempo com os EUA, e aos 25 firmei meu lar em solo brasileiro de vez. Foram alguns endereços e muitas experiências, culturas e pessoas, em pouco tempo. Cada etapa dessa trazia um novo desafio e aprendizados, valeu a pena e hoje posso dizer que não me sinto um expatriado no Brasil, e eu vou explicar o porquê.

Nos primeiros meses no Brasil eu senti uma certa dificuldade. É fato que o problema não foi o idioma. Era a demora. Demora para resolver algo no banco, por exemplo, demora para se deslocar de um bairro a outro – principalmente em São Paulo – e demora para entender que quando o brasileiro diz “vamos marcar”, ele pode talvez nunca mais te ligar.

É vocês brasileiros têm disso. E em Portugal não era assim. Mas em compensação, vocês têm também afeto de sobra com os seus “mais chegados”. É nítida a demonstração de carinho que vocês trocam uns com os outros. Seja em um sorriso ou em um abraço. E isso, com certeza, ajuda muito um cara como eu, que chega nesse país tropical, apenas com a mala e alguns projetos para desbravar.

Pensando assim, talvez seja mais fácil para nós europeus ou outros estrangeiros, vir para o Brasil e não querer voltar, do que para vocês brasileiros chegarem em nossas terras e não voltarem. Muitos de vocês estão indo, principalmente, para Portugal em busca de qualidade de vida. Eu entendo. Mas o outro lado, o lado do bem-estar emocional e da troca de afeto, pode ser que muitos de vocês estranhem a diferença.

Sobre a distância física das pessoas que lá deixei, quando me perguntam o que eu fiz e ainda faço para superar, eu digo que pela juventude da partida, isso se deu de forma um pouco mais natural e sem grandes dificuldades. Tive altos e baixos, é claro, inclusive tenho, mesmo não me sentindo um “gringo” por aqui e sendo carinhosamente tratado de “portuga”. Mas para levar numa boa esses momentos mais baixos, criei recursos que me ajudavam a superar.

Uso a tecnologia a meu favor e criei uma rotina de conversar com regularidade com meus pais, irmãos e amigos, por exemplo. Acompanho o que acontece por lá e vice e versa. Sei que isso não significa viver o que eles estão vivendo, mas também, depois de um tempo, consegui enxergar essa não-presença de uma forma egoísta positiva e pude olhar mais para mim e para as minhas necessidades, sem tanta obrigação ou culpa. Por aqui, também fiz ótimos amigos, conheci o meu atual sócio – apesar de Português – e conheci uma mulher incrível que se tornou minha namorada – curiosamente ela hoje mora fora do Brasil.

Acredito que o erro do expatriado é não recorrer às suas próprias fontes de energia e de socialização, para vencer esse desafio. Por muitas vezes tive que carregar um livro na mochila para ter companhia. Outras vezes, me aventurei em finais de semana fora da cidade com pessoas que eu tinha “acabado de conhecer” para estabelecer novos laços de amizade – algo que brasileiro sabe fazer muito bem é aproveitar seus dois dias de folga na semana! – Mas vi muitos outros expatriados, tanto portugueses como de outras nações do mundo, não sentirem essa oportunidade como eu.

A verdade é que não tem uma receita de A a Z que sirva para todos quando saímos de nosso país. Existe a força de vontade – que você pode buscar sozinho ou com a ajuda de algum especialista em bem-estar emocional – em transformar e aproveitar esse novo passo da forma mais ampla possível. Até hoje, faço terapia, procuro praticar desporto como corrida, squash e futebol, topo sempre um bom papo no bar ou jantar com amigos.

O desenvolvimento profissional também pode ser um ponto a favor quando você se muda. No meu caso, depois de algum tempo aqui e conversando com diversas pessoas, resolvi empreender. Você tá louco em querer empreender no Brasil? Sim, ouvi muito essa frase. E entendi por que me perguntavam isso quando descobri que a demora e a burocracia fariam parte do meu dia a dia novamente. Não é tão simples mesmo, mas o Brasil é sim um país de muitas oportunidades, de muito espaço para o consumo e o desenvolvimento de novas frentes de trabalho. O Brasil é um país continental, onde as pessoas são altamente digitais e engajadas, a rotina de trabalho envolve esforço, vontade e suor, e isso pode ser motivador para quem quer empreender no país.

Agora o Zenklub já está no seu segundo ano e vejo que as apostas que eu fiz deram certo. O caminho está só começando. Aqui no Brasil, em Portugal – abrimos uma frente no país em agosto de 2017 – e em breve em outros países. Você, expatriado, que leu até aqui, já colocou no papel qual o seu propósito de carreira em seu novo país? Esse pode ser um bom ponto para você se apegar e se desenvolver.

Quanto a mim, eu sigo em busca do meu propósito e, claro, ouvindo sempre que converso com algum brasileiro algo sobre o meu sotaque ou a clássica pergunta de como eu consegui trocar Portugal pelo Brasil. E eu lhe digo, Portugal é bom, mas é ruim. O Brasil é ruim, mas é bom. Então por aqui continuo.

 

Rui Brandao

Rui Brandao

Português, médico e CEO do Zenklub, empresa que está mudando a forma como as pessoas encaram seu bem-estar emocional.
Rui Brandao