Você já sentiu aquela sensação de estar acordado, querer se mexer e não conseguir? Isso é a paralisia do sono: um breve período, ao adormecer ou ao despertar, em que a mente está consciente, mas o corpo continua imóvel, sem conseguir se mover ou falar por alguns segundos.
É uma experiência assustadora, mas a paralisia do sono é inofensiva, passageira e não tem nada de sobrenatural. Ela é um fenômeno natural do sono, já bem descrito pela ciência.
Ao longo do texto, você vai entender por que ela acontece, por que às vezes vem acompanhada de alucinações, o que aumenta as chances de um episódio e o que fazer para reduzir a frequência. É um dos distúrbios do sono mais comuns e, uma vez entendido, bem menos amedrontador.
O que é a paralisia do sono?
A paralisia do sono é uma parassonia, ou seja, um evento que ocorre na transição entre o sono e a vigília. Durante o sono REM, a fase em que acontecem os sonhos, o corpo entra em atonia muscular: o cérebro “desliga” temporariamente os neurônios que comandam os movimentos, para que a gente não encene fisicamente o que sonha.
A paralisia do sono acontece quando essa atonia do REM persiste por alguns instantes depois que a consciência já voltou. Ela aparece em dois momentos: ao adormecer, chamada de hipnagógica, ou ao despertar, chamada de hipnopômpica, esta última a mais comum.
O fenômeno da paralisia do sono é relativamente frequente. Segundo o StatPearls, publicação médica da NCBI, estima-se que cerca de 7,6% das pessoas passem por isso ao menos uma vez na vida, número que sobe bastante entre estudantes e entre quem convive com ansiedade ou estresse. Ou seja, se aconteceu com você, saiba que é comum.
Por que a paralisia do sono acontece?
No fundo, a paralisia do sono é uma “sobreposição de estados”: por um instante, o cérebro está acordado, mas o corpo ainda está na paralisia própria do REM. Essa transição costuma acontecer de forma suave e imperceptível. Quando ela é desregulada, seja por falta de sono, seja por um despertar no meio do REM, as duas coisas se cruzam: você acorda, mas o corpo demora um pouco para “religar”. Por isso a sensação de não conseguir se mexer nem falar, que gera o susto e a aceleração dos batimentos.
Por que surgem as alucinações?
Cerca de três em cada quatro episódios vêm acompanhados de alucinações, e é isso que, ao longo da história, alimentou as histórias de assombração ou de “ver demônios” em várias culturas. Elas acontecem porque parte do cérebro ainda está no “modo sonho” do REM enquanto você já percebe o quarto real, misturando as duas coisas.
Costumam aparecer em três formas: a sensação de uma presença ameaçadora no quarto (o “intruso”); a sensação de peso ou pressão no peito e falta de ar (o chamado “íncubo”); e sensações de movimento, como flutuar ou cair. Saber que essas imagens são geradas pelo próprio cérebro, e não por algo externo, ajuda a entender o que aconteceu, mas é difícil se lembrar disso e manter a calma durante um episódio de paralisia.O que causa a paralisia do sono?
A paralisia do sono é comum, mas ainda pouco estudada. O que se sabe é que alguns fatores aumentam as chances de um episódio, quase sempre por bagunçarem a arquitetura do sono:
- Privação de sono e noites mal dormidas, o gatilho mais forte;
- Horários irregulares de sono, trabalho por turnos e mudanças de fuso;
- Estresse e ansiedade, além de transtornos psiquiátricos;
- Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e transtorno do pânico;
- Uso de álcool e de algumas substâncias;
- Predisposição genética;
- Dormir de barriga para cima (posição supina), presente na maioria dos episódios.
A paralisia do sono também pode ser um sintoma da narcolepsia, um distúrbio marcado por sonolência excessiva durante o dia. Por isso, quando os episódios são frequentes, vale investigar.
Como reagir durante um episódio de paralisia do sono?
Manter a calma é o mais indicado, ainda que não seja fácil com o coração disparado. Como agora você sabe que não é nada sobrenatural e que vai passar em segundos, fica um pouco mais simples atravessar esse momento.
Existem algumas estratégias que ajudam a lidar com episódios de paralisia do sono: concentrar-se na respiração, lembrar a si mesmo “isso é paralisia do sono e já vai passar”, e tentar mover aos poucos pequenas partes do corpo, como os olhos ou a ponta dos dedos, que costumam “religar” primeiro. Resistir e entrar em pânico tendem a alongar a sensação de desespero; enquanto relaxar tende a encurtá-la, mas é mais difícil de fazer.
Como evitar a paralisia do sono?
Como os principais gatilhos têm a ver com a qualidade do sono, cuidar da rotina noturna é a melhor prevenção. Na prática:
Tenha uma rotina de sono. Dormir e acordar em horários parecidos estabiliza as transições entre as fases do sono. Um ritual relaxante antes de deitar ajuda, como um banho morno ou um chá de camomila, que pode ajudar a relaxar.
Desacelere antes de dormir. Ler um capítulo de um livro, ouvir algo calmo ou focar na respiração prepara o corpo para o descanso.
Desligue as telas com antecedência. A luz e o estímulo do celular e da TV atrapalham o sono, então vale se desconectar ao menos uma hora antes de deitar.
Movimente-se durante o dia. Praticar exercício com regularidade melhora a qualidade do sono e ajuda também contra a insônia. Evite só treinos muito intensos perto da hora de dormir.
Evite dormir de barriga para cima. Como a posição supina está ligada a mais episódios, se você tem episódios frequentes de paralisia do sono, tentar dormir de lado pode reduzir a frequência.
Sintomas da paralisia do sono
- Tentar, mas não conseguir mover o corpo nem falar;
- Palpitação e sensação de falta de ar;
- Alucinações auditivas (ouvir passos ou vozes) ou visuais (ver vultos ou figuras);
- Sensação de peso no peito, de estar flutuando ou de cair;
- Angústia e medo intensos, que passam junto com o episódio.
A paralisia do sono não coloca a sua vida em risco. Durante o episódio, todo o seu corpo continua funcionando normalmente, então faça o seu melhor para tentar não se desesperar.
Como é feito o diagnóstico? Existem exames?
Na maioria dos casos, o diagnóstico é só clínico: o médico ouve a descrição dos episódios (a paralisia em si, as alucinações, o momento em que acontece) e, com isso, já consegue reconhecer o quadro. Não é preciso nenhum exame para confirmar um episódio isolado de paralisia do sono.
Mas, quando os episódios são frequentes ou vêm acompanhados de outros sinais, como sonolência excessiva durante o dia ou fraqueza muscular repentina diante de emoções fortes (a chamada cataplexia), o médico pode pedir uma investigação mais aprofundada para descartar narcolepsia ou outros distúrbios do sono.
Os exames mais usados são a polissonografia, um estudo do sono feito durante a noite (às vezes numa clínica especializada) que registra ondas cerebrais, batimentos e respiração, e o teste de latências múltiplas do sono, feito no dia seguinte, que ajuda a confirmar ou descartar a narcolepsia. Um médico especialista em sono ou um neurologista é quem indica se esses exames são necessários no seu caso.
Uma revisão publicada na Cureus lista justamente a polissonografia entre as ferramentas usadas para investigar quadros de paralisia do sono associados a outras condições.
A paralisia do sono é perigosa? Tem cura?
Na maioria das vezes, a paralisia do sono acontece de forma isolada e ocasional, sem afetar a saúde. Quando os episódios passam a ser frequentes e a causar sofrimento, fala-se em paralisia do sono isolada recorrente, e aí vale procurar uma avaliação profissional, tanto para melhorar o sono quanto para descartar outras condições, como a narcolepsia.
Mais do que “cura”, o caminho é reduzir os episódios cuidando dos gatilhos: sono em dia, menos estresse e uma boa rotina noturna. Quando há uma carga emocional por trás, tratar essa questão costuma diminuir a frequência dos episódios.
Nos casos de paralisia do sono isolada recorrente, quando os episódios são muitos e atrapalham a rotina, o médico pode indicar tratamento. As opções mais usadas, segundo a revisão publicada na Cureus, são doses baixas de antidepressivos ISRS, que ajudam a suprimir parte do sono REM e reduzem a frequência dos episódios, e a terapia cognitivo-comportamental, que trabalha diretamente a ansiedade e o estresse por trás do quadro. Qualquer medicação, claro, só deve ser usada com indicação e acompanhamento médico.
Quando procurar ajuda
Se os episódios são raros, provavelmente não há com o que se preocupar. Mas, se acontecem com frequência, atrapalham o seu sono ou vêm acompanhados de muita ansiedade, vale procurar ajuda: um médico da área do sono ou neurologista pode avaliar o quadro, e a psicoterapia pode te ajudar a cuidar do estresse e da ansiedade, que costumam ser gatilhos para esses episódios. Muitas vezes, o que tira o sono não é só a paralisia em si, e sim as preocupações que levamos para a cama.
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