Cada vez mais ouvimos falar sobre transição capilar. Neste artigo você vai entender tudo sobre este movimento que tem atraído cada vez mais mulheres a assumir seus cabelos crespos e/ ou cacheados.

Já parou para pensar sobre qual o impacto do seu cabelo em sua vida? O nosso cabelo consegue comunicar às pessoas aspectos da nossa personalidade e até mesmo nosso estado de espírito.

Desde a antiguidade o cabelo é utilizado por diversas culturas como forma de expressão e simbolizando aspectos como força, sedução, status, estado civil, sexo, entre outras coisas. Assim como também foi utilizado como forma de luta política e resistência na década de 60 com o movimento Black Power, trazendo à tona debates sobre o racismo e a imposição da cultura europeia sobre os negros.

O que é transição capilar?

A transição capilar é o processo onde a pessoa deixa de utilizar produtos químicos que modificam a estrutura do seu cabelo (ex. progressivas, alisamentos ou relaxamentos) e passa a assumir seu cabelo natural. Podemos observar estes preconceitos em pequenas frases do dia a dia, frases estas que desvalorizam a identidade negra. Então, como assumir o cabelo crespo, onde mostrar aspectos da minha negritude é considerado negativo?

A menina de cabelo crespo e/ou cacheado desde pequena é submetida a “rituais de beleza” que buscam esconder o volume e/ ou a estrutura do seu cabelo, deixando-as mais próximas do padrão social. E nesta imposição, muitas vezes são expostas a produtos químicos.

Além disso, ao olhar a sua volta observa que todas as mulheres alisam seus cabelos, então cresce achando que é deste modo que também precisa ser. Desta forma, a menina cresce com ideias negativas a respeito do seu cabelo (“cabelo ruim”, “cabelo duro”, “palha de aço”, etc.) e acredita que cabelo bom é o cabelo liso, pois não tem sofrimento para pentear. E na maioria das vezes, passa a reproduzir com suas filhas a mesma ideia sobre o cabelo.

Muito além de uma mudança estética

Assim, este processo da transição capilar não é apenas um processo de mudança externa, antes e durante a transição capilar a mulher passa a lidar com questões internas e passa a reviver com os preconceitos que viveu na infância. Apesar de tudo, este processo acaba tornando-se doloroso. Além de fazê-la reviver as experiências negativas que teve com seu cabelo, a transição mexe com a autoestima da mulher, uma vez que seu cabelo durante um período fica sem definição e é necessário que tenha paciência para que chegue ao resultado esperado.

A gente conversou com a maravilhosa Bruna Cambraia sobre o seu processo de transição capilar e como isso foi super importante para ela redescobrir sua autoestima e se conhecer como a mulher negra, empoderada e de luta que ela é. Foi um longo caminho de autoconhecimento e ela conta um pouquinho das experiências que a trouxeram até aqui. 

A gente sabe que os cabelos cacheados e crespos só começaram a ser mais aceitos pouquíssimo tempo atrás – e ainda são alvo e preconceito. Como era o seu cabelo quando  criança e como as pessoas o viam?

Eu não sei se os cabelos cacheados/crespos estão sendo tão aceitos. Essa “tolerância” não é nada menos do que uma conquista do movimento negro, que vem lutando há muito tempo.

É engraçado.. na infância, o meu cabelo era exatamente igual ao que é agora, depois que eu acabei a transição capilar. Eu sofri muito racismo quando eu era mais nova. A época do colégio foi a pior da minha vida. Minha autoestima sempre foi baixíssima por conta das coisas que eu ouvia e os apelidos que os meninos me davam.

Eu nunca me sentia bonita e não tinha confiança em mim mesma. É muito louco pensar que hoje em dia, depois da transição, eu esteja exatamente com o mesmo cabelo que foi alvo de tanto racismo e me sentir bem com ele, bonita e segura.

Quantos anos você tinha quando decidiu alisar seu cabelo pela primeira vez?

Eu comecei a alisar o cabelo bem cedo. Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, comecei a fazer escova. Antes disso, eu já fazia alguns procedimentos químicos, como relaxamento, alguns produtos para deixar os cachos “disciplinados”, que nem algumas propagandas estéticas costumam divulgar: “quanto menos volume, melhor”, sabe? 

A pré-adolescência é uma época super cruel: se você não for branca, magra e loira, você é rechaçada – principalmente pelos meninos. Eu senti a necessidade de alisar o meu cabelo, por conta de todo o bullying e racismo. Eu não me sentia bem. Eu insisti tanto que minha mãe acabou cedendo. Por isso comecei a alisar. 

Toda semana, eu e minha irmã íamos ao salão para fazer escova. Quando eu tinha uns 15 anos, eu comecei a fazer escova progressiva. E fiquei até agora pouco, com meus 21 anos, que foi quando eu entrei na transição.

O que você sentia estando com o cabelo liso e dentro do padrão?

Eu me sentia bem com o cabelo liso. No começo, eu tinha o cabelo curto, exatamente do mesmo tamanho que ele está agora. Foi nessa época que eu comecei a sofrer muito racismo no colégio. Ele foi crescendo e quando eu tinha uns 16 / 17 anos, ele já estava bem grande. A partir daí, comecei a cultivar ele cada vez maior.

À medida que eu crescia, comecei a me entender um pouco mais dentro desse padrão branco de aparência. Comecei a me embranquecer, senão minha autoestima ia ser sempre péssima. Eu não tinha nenhuma referência, ninguém que me ensinasse a confiar em mim mesma e me achar bonita que nem as outras meninas. Me ensinasse a entender que a minha beleza não é uma beleza branca, não é a beleza que a sociedade impõe pra mim.

As coisas melhoraram porque eu fui entendendo mais de estética – aprendi a alisar meu próprio cabelo, fazer escova. Sempre fui muito vaidosa e nessa época fiquei ainda mais. Meu cabelo chamava muita atenção, porque quando eu alisava, ele ficava um liso ‘tipo índio’, sabe? As pessoas elogiavam muito e eu passava horas cuidando dele, me dedicava muito. Eu me sentia bem.   

O que te levou a pensar em voltar para o seu cabelo cacheado natural? Teve alguma inspiração?

A questão da transição era um assunto que sempre estava em pauta nas sessões de terapia com minha psicóloga, mas nunca fui pressionada. Eu fui no meu tempo.

Foi no momento em que eu comecei a me descobrir como mulher negra e o que isso significa, que eu passei a me incomodar um pouco quando me olhava no espelho. Porque me conhecer como mulher negra me colocou em espaços onde conheci e fiz amizades com outras pessoas negras, que me apresentaram um outro panorama da vida e eram assumidos, com black power, tranças, dreads.

Minha principal influência foram as meninas do coletivo negro da minha faculdade e meu namorado, que também é negro e frequenta muitos lugares só com pessoas negras. Nessa hora, comecei a me olhar no espelho e sentir a necessidade de conhecer o que estava embaixo daquele cabelo liso. Eu cheguei a não me reconhecer mais.

 

Muitas mulheres falam o quanto é difícil o processo da transição capilar, por causa da demora, de se acostumar e por um sentimento de baixa da autoestima. Como você se sentiu durante tudo isso?

Eu passei pela transição com as tranças, as box braids, que me ajudaram muito e eu não sofri nem um pouco. Minha transição foi um processo muito gostoso porque as tranças caíram como uma luva para mim. Quando as coloquei, minha autoestima aumentou demais, eu me senti maravilhosa. As tranças foram feitas para mulheres negras e são um símbolo histórico, de resistência e luta.

Colocá-las fez me conhecer ainda mais e perceber como as mulheres negras são lindas – e eu sou uma delas. Na verdade, eu estou sentindo a transição agora, que é a fase de se acostumar com o cabelo curto e com uma textura diferente. Está sendo um processo mais delicado, tenho que ter mais paciência e mais calma para me adaptar e me sentir sempre bem com meu próprio cabelo.

Agora você já passou pelo processo da transição e está com o cabelo 100% natural. Como você está se sentindo? Feliz?

Eu estou muito feliz porque é muito bom se livrar das amarras de coisas como chapinha e secador. É libertador, realmente. Era uma escravidão.

Eu não tinha mais tempo para cuidar do meu cabelo alisado. E era um sacrifício desnecessário: porque que eu vou ficar embranquecendo elementos naturais meus – do meu corpo, da minha raça? E para agradar quem? Eu precisava de um impulso para chegar até aqui – me conhecer, conhecer meu cabelo, meu tipo de cacho, saber que eu tenho, sim, que cuidar do meu cabelo e fazer os tratamentos certos.

Além de eu ter me conhecido como pessoa, de não ter mais nenhum elemento que esconda que eu sou de verdade – e descobrir como isso é incrível -, tem a questão da praticidade: eu não preciso de muito para deixar meu cabelo bonito. Eu não preciso ficar 3 horas alisando o cabelo ou colocar algo que faça mal para a minha saúde na minha cabeça.

Foi uma escola para mim, sabe? Eu estou me adaptando e gostando. Apesar de não ser um dos processos mais fáceis, está sendo cada vez mais gostoso conhecer a mim mesma todos os dias, sem nada me impedindo de ser quem eu sou.

 

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