No final do mês de julho, fizemos uma matéria sobre autoestima feminina e como se aceitar tendo um corpo fora dos padrões. Conversamos com a produtora de moda Daylane Cerqueira e com a psicóloga formada pela USP e especialista em psicopatologia e saúde pública Andrea Maria Mendes Cembranelli, que atende por vídeo-chamada no Zenklub, a respeito de como é possível manter a autoestima em uma sociedade que condena o diferente e que ainda cultua o corpo magro.
A entrevista com Andrea rendeu tanto que decidimos postá-la na íntegra para encorajar cada vez mais mulheres a fazer as pazes com o próprio corpo e a trilhar o caminho do amor próprio e de uma autoimagem que corresponda à realidade, sem tentar corresponder aos padrões inatingíveis de um corpo perfeito. Confira abaixo o resultado dessa conversa.
Zenklub – Apesar de muitas mulheres já terem consciência de que os padrões divulgados em revistas e até mesmo nas redes sociais não são reais e prejudicam a autoestima, na intimidade ainda é muito difícil aceitar o próprio corpo. O que você recomenda para quem está trilhando esse caminho do amor próprio e do autoconhecimento?
Andrea Cembranelli – Primeiramente, é preciso reconhecer o sofrimento de quem tem um corpo “fora do padrão”. Não apenas a indústria da moda e as mídias reforçam que só o corpo magro é aceitável, mas temos uma sociedade que interiorizou plenamente essa ideia. Isso fica claro na máxima “magra para casar”, no sentido de que para ser reconhecida como mulher e adentrar a instituição do casamento, é preciso ter um corpo magro para caber no vestido almejado. É interessante perceber que a defesa desse ideal estético magérrimo está imbricada num olhar bastante misógino que coloca a mulher como alguém que tem que se assujeitar a um ideal para ser reconhecida. Fala-se tanto de empoderamento feminino, mas infelizmente é muito comum, em rodas de mulheres, queixas sobre insatisfação sobre o próprio corpo e o pressuposto que todas devem fazer dieta e esforçar-se exaustivamente para ter o corpo ideal. Mas aí fica a questão: que ideal é esse? Percebo no relato de muitas mulheres que me procuram no consultório insatisfeitas com o próprio corpo a busca de um ideal inalcançável e um funcionamento psíquico melancólico, que é baseado na lógica do “tudo ou nada”. Ou ela alcança o resultado desejado na balança E no espelho (pois não basta perder os 7,23kg almejado, TEM QUE perder também, a gordurinha saliente no pescoço, aquela dobrinha na coxa que incomoda tanta, aquela saliência no braço… – tudo ao mesmo tempo agora!) ou se sente arruinada, fracassada, inadequada socialmente. Eis um dos motivos do efeito sanfona, da baixa autoestima, do sentimento de culpa e vergonha que essas mulheres tanto carregam.
Costumo pensar que a saída desse funcionamento “tudo ou nada” é o reconhecimento dos afetos. Isso porque essas mulheres ficam tão preocupadas em como devem ser, em como devem agir para se adequar ao padrão, que se esquecem de se perguntar como estão se sentindo, quais as suas necessidades e principalmente seus desejos perante à vida. Brinco que elas engolem seu desejo e aí ganham peso. Quando falo desejo, me refiro ao caminho singular que as move na vida.
São mulheres que muitas vezes não sabem nem do que gostam (que tipo de roupa preferem, que tipo de vestuário gostam de usar, que exercícios físicos lhes dão prazer, quais seus filmes e músicas favoritos); elas tentam desesperadamente se encaixar no padrão em todas as áreas de suas vidas (não apenas nas medidas antropométricas) que isso vale também para seus gostos e interesses. Usam roupas voltadas para o “público gordo” (a clássica legging com bata), vão à academia pois todos vão, ouvem as músicas e vêem os filmes que todo mundo gosta. Logo na primeira entrevista, elas me dizem que querem a minha ajuda para que possam “ser como os outros” e que aí ficarão bem. O meu trabalho com elas é justamente desconstruir essa premissa na busca de um caminho único e singular para elas. Um caminho onde seus interesses são questionados e acolhidos, onde os incômodos e insatisfações não sejam mais engolidos, mas escutados; onde sua singularidade e potência ganhem espaço.
Repito muito no consultório a seguinte frase: “é você que sabe do seu corpo e do seu desejo e não os outros”. O resgate da própria potência e o empoderamento sobre a própria história e o próprio desejo parecem ser um dos passos necessários para a melhora da autoestima e do autoconhecimento.
Zenklub – Existem muitos grupos de apoio entre mulheres no Facebook e até projetos que incentivam o amor ao próprio corpo, mas a gordofobia é um problema sério vivido diariamente por muitas mulheres. Como fortalecer a autoestima e fazer as pazes com a autoimagem mesmo em uma sociedade que condena quem é gordo (a)?
Andrea Cembranelli – A Sociedade Brasileira de Metabologia e Endocrinologia define o diagnóstico da obesidade em adultos principalmente por meio do IMC (Índice de Massa Corpórea) que é o peso dividido pela altura ao quadrado. Se ele é acima de 30, a pessoa é considerada obesa. Essa definição baseada em um número acarreta consequências psíquicas; entre elas, a busca incessante por um ideal estético e o sentimento de culpa e inadequação em relação ao próprio peso, dos quais falei anteriormente. E aqui não faço uma defesa da obesidade, mas questiono essa medida “padronizadora” que desconsidera a singularidade de cada corpo. É possível, por exemplo, estar acima do peso e estar saudável do ponto de vista clínico, ainda que essa isso soe contraintuitivo pelo que é colocado por nossa sociedade contemporânea.
Defendo uma relação com o corpo não de adequação e assujeitamento, mas de cuidado, respeito e escuta. Sim, é preciso escutar o próprio corpo: escutar suas dores, incômodos e até seus pontos de prazer que ficaram tamponados pelos deveres e obrigações. Uma sexualidade que ficou engolida enquanto esse corpo estava tentando se encaixar num padrão que não era o seu, era o dos outros e isso só lhe trouxe sofrimento e angústia.
“Acredito que um passo importante nesse processo é a saída dessa posição de dependência e ressentimento perante as pessoas à sua volta para uma reconquista do próprio caminho, do protagonismo da própria história”.
Zenklub – É possível se livrar da ideia de que ser gordo necessariamente não é saudável ou ainda não fazer do próprio corpo o foco da própria vida?
Andrea Cembranelli – Sim, sem dúvida! Para isso, reafirmo a frase que disse há pouco: “é você que sabe do seu corpo e do seu desejo e não os outros”. Nesse processo de empoderamento do qual falei, é preciso descolar-se desses padrões estéticos (interiorizado na forma de sentimento de culpa) para descobrir uma relação singular com o próprio desejo. Como posso descobrir prazer e beleza nesse corpo que não é da capa da Women’s Health e tem seu charme do jeito que se é.
Defendo a ideia não da padronização e da igualitarização das pessoas, mas, sobretudo, um reconhecimento das diferenças e da singularidade entre elas. E esse é um posicionamento político. Estamos falando aqui de pessoas gordas, mas esse raciocínio também vale para quem tem transtorno mental, pessoas com deficiência… todos os grupos minoritários alvo de estigma e preconceito da sociedade. E temos uma sociedade bastante implacável com quem é diferente. Por isso, é tão importante esta mobilização da população no combate aos estigmas, os trabalhos das militâncias e destes grupos de apoio no Facebook. O que eles fazem é dar voz ao que é silenciado socialmente acolhendo as diferenças e as singularidades. Sentir-se pertencente e escutado é fundamental na reconstrução da autoestima e da melhora na relação consigo próprio.
Assim, como o que está em foco é a retomada da própria potência e de um caminho que faça sentido ao sujeito de uma forma geral, a relação com o próprio corpo é ressignificada. De uma relação “de peso” para uma relação mais leve, mais flexível consigo mesmo onde o desejo possa aparecer e ter espaço.
Gostaria de terminar nossa conversa hoje com uma citação do Guimarães Rosa de “Grande Sertão: Veredas”: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. E por que não coragem para pedir ajuda e ser escutado?