Essa semana, Rihanna estampou mais uma vez as manchetes dos sites de entretenimento. Se você digitar Rihanna no Google, vai ver a palavra “engordou” aparecer logo depois do nome da cantora. Mera curiosidade ou um comportamento exagerado? Sem dúvida nenhuma, as buscas são fruto de uma sociedade cujos padrões de estética ainda estão presos à mulher que precisa estar sempre magra para ser considerada bonita.

Corpo feminino: como se aceitar sendo alguém fora dos padrões?

“Primeiramente, é preciso reconhecer o sofrimento de quem tem um corpo “fora do padrão”. Não apenas a indústria da moda e as mídias reforçam que só o corpo magro é aceitável, mas temos uma sociedade que interiorizou plenamente essa ideia. Isso fica claro na máxima “magra para casar”, no sentido de que para ser reconhecida como mulher e adentrar a instituição do casamento, é preciso ter um corpo magro para caber no vestido almejado” diz a psicóloga formada pela USP e especialista em psicopatologia e saúde pública Andrea Cembranelli, que atende por vídeo-chamada pelo Zenklub.

Ser uma mulher fora dos padrões de beleza pode ser muito doloroso se a autoestima não estiver em dia e não for um assunto muito bem resolvido consigo mesma. Para muitas mulheres, entretanto, essa é uma realidade bastante conhecida.

A produtora de moda e stylist Daylane Cerqueira, 29, precisou ressignificar a autoestima quando começou a ganhar peso. “Sempre tive a autoestima alta, mas depois de começar a trabalhar com moda as coisas foram mudando um pouco. Viver diariamente nesse mercado, não estando nos padrões impostos por ele (mesmo que seu corpo não comporte esses padrões), é bem difícil. Me lembro que no começo eu não importava muito, pra mim era tudo novidade. Mas o tempo foi passando, fui amadurecendo e me moldando inconscientemente. Mesmo restringindo a alimentação, eu trabalhava em horários malucos, tinha muita ansiedade e acabava descontando o cansaço e as noites mal dormidas em muita comilança e bebida. Engordei bastante. Com 1,55m de altura pesava 75kg. Comecei a me achar feia e inadequada e então resolvi ir pra um spa pra tentar melhorar essa imagem de mim mesma”, conta.

Para a psicóloga Andrea Cembranelli, é preciso recorrer à força interna para conseguir se amar como diferente em uma sociedade norteada pelos padrões. “Repito muito no consultório a seguinte frase: ‘é você que sabe do seu corpo e do seu desejo e não os outros’.  O resgate da própria potência e o empoderamento sobre a própria história e o próprio desejo parecem ser um dos passos necessários para a melhora da autoestima e do autoconhecimento”, afirma.

Daylane conta que começou a mudar a relação que tinha com o corpo quando passou a se conhecer melhor e entendeu quais eram os próprios limites. “O tempo foi passando e eu fui ganhando mais peso, mas isso já não me incomodava tanto mais. Estava me descobrindo como mulher e entendendo, inconscientemente, que o meu corpo era bonito daquele jeito. No final de 2015 comecei a enxergar o quanto eu era bonita. O peso já não me incomodava mais e eu me achava cada dia mais linda. Minha autoestima estava super elevada e me sentia bem comigo mesma. Cheguei aos 85kg, e me sentia ótima!”, conta ela, que chegou a frequentar a academia todos os dias e a controlar rigorosamente a alimentação.

De acordo com a psicóloga Andrea Cembranelli, a busca por um corpo perfeito e que esteja dentro dos padrões é algo comum entre as mulheres que atende. “Percebo no relato de muitas mulheres que me procuram no consultório insatisfeitas com o próprio corpo a busca de um ideal inalcançável e um funcionamento psíquico melancólico, que é baseado na lógica do ‘tudo ou nada’. Ou ela alcança o resultado desejado na balança e no espelho ou se sente arruinada, fracassada, inadequada socialmente”, explica Andrea.

Se perceber única e ter uma rede de apoio é uma equação possível

Nas redes sociais, muitos grupos formados apenas por mulheres promovem a busca pelo autoconhecimento, pelo reconhecimento da autoimagem e pelo caminho do amor próprio. Muitas vezes, o que começa como um grupo virtual se transforma em encontros presenciais de apoio mútuo, formando uma poderosa rede de apoio.

Daylane (centro) em apresentação com o grupo Maravilhosas Corpo de Baile durante evento promovido pelo Pop Plus em 2017. Foto: Pop Plus/ Arquivo Pessoal

Daylane conta como estar em um grupo que a acolheu, somado às sessões de psicoterapia, foi importante para o fortalecimento da autoestima. “Ao sair férias para visitar a minha família, fui alvo de muitas críticas por estar gorda. Voltei de férias super triste e deprimida. O que me ajudou a levantar foi a terapia. Nela eu consegui enxergar que, independente do corpo, nós temos outras qualidades e são elas que nos ajudam na nossa construção como pessoas. A partir daí minha autoestima foi sendo retomada. E junto com a terapia, veio o Maravilhosas Corpo de Baile – Ame Seu Corpo Dançando, que foi onde tudo fez ainda mais sentido. Conheci o Maravilhosas através da idealizadora do Pop Plus (feira de moda e cultura plus size), a jornalista Flavia Durante. Ela foi fazer uma aula experimental e postou no Facebook. Imediatamente fui atrás do coletivo e me encontrei! Lá a gente não se critica, só se enaltece! Aprendemos com a Graziela Meyer (idealizadora do coletivo) que nossos corpos são lindos como são, que cada curva, cada estria, cada celulite tem um porque e elas contam a história do nosso corpo e que ele sempre irá produzir movimentos lindos, independente de como ele seja”.

A produtora de moda Daylane Cerqueira. Foto: arquivo pessoal

É preciso escutar o próprio corpo

Mais do que a pressão dos amigos, da família e da mídia para que as mulheres sejam sempre magras ou atinjam a um padrão estético altíssimo, algumas definições de saúde corroboram a ideia do corpo magro associado à saúde.

“A Sociedade Brasileira de Metabologia e Endocrinologia define o diagnóstico da obesidade em adultos principalmente por meio do IMC (Índice de Massa Corpórea) que é o peso dividido pela altura ao quadrado. Se ele é acima de 30, a pessoa é considerada obesa. Essa definição baseada em um número acarreta consequências psíquicas; entre elas, a busca incessante por um ideal estético e o sentimento de culpa e inadequação em relação ao próprio peso. E aqui não faço uma defesa da obesidade, mas questiono essa medida ‘padronizadora’ que desconsidera a singularidade de cada corpo. É possível, por exemplo, estar acima do peso e estar saudável do ponto de vista clínico, ainda que essa isso soe contraintuitivo pelo que é colocado por nossa sociedade contemporânea”, alerta Andrea.

A psicóloga recomenda que o entendimento de cada uma como um indivíduo, além de uma relação de amor consigo mesma, é o caminho para se aceitar diferente mesmo em uma sociedade que enaltece o que é igual. “Defendo uma relação com o corpo não de adequação e assujeitamento, mas de cuidado, respeito e escuta. Sim, é preciso escutar o próprio corpo: escutar suas dores, incômodos e até seus pontos de prazer que ficaram tamponados pelos deveres e obrigações. Acredito que um passo importante nesse processo é a saída dessa posição de dependência e ressentimento perante as pessoas à sua volta para uma reconquista do próprio caminho, do protagonismo da própria história”, finaliza.