A felicidade é um fenômeno universal. Mesmo que as vias para alcançá-la sejam tão diversas de um sujeito para outro, ela faz parte dos anseios de todos os seres humanos. Mas, por ser relativa à equação falta versus desejo, não há como garantir sua permanência e nem há, tampouco, como prometê-la.
É muito comum um psicólogo ser procurado por um paciente que espera, sinceramente, já numa primeira sessão, que o profissional lhe acene um horizonte sem dor, plácido, pleno de felicidade. Quem, ao menos conscientemente, não quer isso?
Mas será que se fosse contínua, sem o contraponto de seu avesso, a felicidade teria graça? Será que em nossa grande capacidade adaptativa não nos sentiríamos logo entediados com tal estado e daríamos um jeito de criar um conflitozinho a lhe fazer frente?
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O trabalho analítico não é, nem de longe, uma tentativa de moldagem do sujeito a alguma imagem pré-estabelecida, ou, o que é pior, à imagem e semelhança de seu analista. Num casamento perfeito entre filosofia e a lógica psicanalítica, diz o filósofo alemão Immanuel Kant: “Ninguém pode me obrigar a ser feliz a sua maneira”. A análise leva o paciente à compreensão daquilo que ele precisa e daquilo que ele realmente não precisa para ser mais feliz, ou menos infeliz.
O tratamento psicológico pode auxiliar, e muito, na lida com os conflitos de qualquer natureza. Pode levar o paciente a perceber que felicidade diz respeito à supressão temporária de uma falta, mas que a falta é uma das condições humanas, e que nossos desejos são apenas parcialmente satisfeitos, porque na realização de um desejo, logo se seguirá uma outra falta, e a felicidade talvez aflore nesses intervalos. Como disse o psicanalista francês Jacques Lacan, “o desejo é sempre o desejo de um outro desejo”.
No “Livro do Desassossego”, o poeta português Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Bernardo Soares diz: “É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter”. Mais adiante, o poeta diz “não se pode comer um bolo sem o perder”.
Sobre a autora
É psicóloga e atende por vídeo-chamada no Zenklub.