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No último feriado em São Paulo, as ruas se encheram de cores do arco-íris, de inúmeros visitantes do Brasil todo – quiçá do mundo, levantando a bandeira LGBT pela Parada do Orgulho Gay. Mas o que isso tem a ver com nós do Zenklub e com as nossas conversas por aqui? É isso que você vai ler nesse artigo, além de uma breve contextualização histórica e alguns outros temas que estão tomando o mundo todo.

Um pouco de história

Vamos começar relembrando onde tudo começou. Até os anos 60, antes da Revolução Sexual ocorrida nos anos 60 e 70, em que um grupo de pessoas desafiaram a perspectiva social e o tradicionalismo comportamental relacionados à sexualidade e aos relacionamentos humanos, o termo mais próximo à diversidade de gênero era algo como terceiro-gênero e homossexualismo, o que não era nada aceito pela comunidade da época (e até hoje, claro), pois trazia em si conotações negativas. O termo gay ganha sua importância, relevância e aceitação pelos ativistas apenas em meados dos anos 70, acompanhado pelo termo lésbicas, por conta da presença forte de mulheres em favor da sua identificação. Em 88, o termo LGBT, representando Lésbicas-Gays-Bissexuais-Transexuais, passa a ser adotado nos EUA e em outros países.

Dentro desse contexto, em 28 de junho de 1969 aconteceu, em Nova York, a primeira passeata gay. O motivo? Os frequentadores do bar gay mais conhecido da cidade se reuniram para protestar contra a atuação da polícia, conhecida como “batida policial de rotina” (pense!), e pelo valor dos seus direitos como cidadãos diante de tal situação. A ação durou quatro dias sob forte resistência de seus membros. Um ano depois, esse movimento é relembrado e ganha corpo com mais de dez mil pessoas às ruas reafirmando seus direitos, dando início a um marco a essa data e firmando, enfim, a tradição da Parada do Orgulho Gay. No Brasil, a primeira Parada gay acontece somente em 1997, e isso se “explica” pelo momento político-social que o país enfrentou durante alguns anos com a ditadura militar e as suas consequências.

“Somos muitos e estamos em todas as profissões!”

Com esse tema que a 1ª Parada do Orgulho LGBT tomou as ruas no Brasil e não poderia ser tão atual e reflexivo. A partir daí, todos os anos a Parada segue assim, se vestindo de um tema político ou social ou cultural, para dialogar com o público, e se vestindo também de muito orgulho, de alegria, de palavras de ordem, de música, de cores, de purpurina, das mais diversas – e divertidas – expressões e de muita representatividade. Sim, aceite, lá pode. E você também é bem-vindo(a).

De ano em ano a Parada vem colocando multidões na rua, como esse ano, que registrou três milhões de pessoas em São Paulo. Ganhou sim em grandiosidade, mas por trás desses números e de todo lucro que o evento reverbera na economia (pois é! Engana-se você que olha para o evento apenas como destino do seu imposto pago), seus participantes querem, impactar a todos com o seu potencial discurso, que inclui diversidade, aceitação e tolerância, e a sua relevância e presença dentro do cenário social.  

Sobre tolerância e o Brasil

Brasil é o país do Carnaval e do futebol, mas não é o país da tolerância. Infelizmente, aqui é lugar o que mais mata LGBTs no mundo todo. Não sou eu quem estou dizendo. Se você digitar no Google vai aparecer em diversos veículos de mídia o relatório da entidade Grupo Gay da Bahia (GGB) que afirma que em 2017 o país atingiu o seu maior registro de homicídios da população LGBT, com 445 casos, um aumento de 30% em relação a 2016.

Faça as contas e agora imagina quantos não morrem todos os dias, apenas por serem quem são. Se ainda assim, você, não-LGBT, não sentir o peso e a dor que esses números carregam, tudo bem, alguém bem ao seu lado poderá te contar o quanto de medo, raiva, revolta e outros sentimentos isso pode pesar no dia a dia.

LGBT e o pertencimento

Agora vamos falar sobre o sentimento de pertencimento e a importância de uma sigla com tantos caracteres (e olha que tem mais!). Em geral, a palavra pertencimento refere-se à crença subjetiva que em origem comum é capaz de unir distintos indivíduos; em bom português, é você se sentir como parte de um coletivo, com características e valores que se aproximam do seu significado individual. Parece complicado de definir, mas aposto que você, pessoa que se encaixa na sigla ou não, já precisou se sentir pertencente a um grupo, a um local ou a uma cultura, em diversos momentos da sua vida, e o sentimento de pertencimento estava lá, clamando para se fazer presente e te deixar bem.

É por aí que vem todos esses caracteres quando falamos das variedades de opções de gêneros dos seres humanos e a sua vontade de se expressar, comunicar, viver e porque não lutar por reconhecimento, e sim, por pertencimento. Então, a antes LGB, usada nos anos 90 no Brasil, se torna LGBT e reúne a comunidade de pessoas que se identificam com os gêneros Lésbicas-Gays-Bissexuais-Transexuais em um movimento de luta por direitos e respeito.  

Mas e o termo LGBTQ+ ou a LGBTI ou LGBTTQQIAAP (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, transexuais, queer, questionadores, intersexuais, assexuais e pansexuais)? Ok, você tem razão, existem outras frações – licença poética da autora do artigo para denominar assim – dessa sigla. E não tem problema. Todas elas são ligadas a pessoas e seus sentimentos de pertencimento, a sua vontade de luta e de falar a respeito. De uma maneira geral, optamos aqui, durante todo o tempo, por utilizar as siglas que compõe o tema de hoje, a Parada do Orgulho LGBT. Então, vamos de LGBT.

Ainda em tempo, o pertencimento faz parte da busca constante das pessoas por seu bem-estar emocional e precisamos falar sobre ele. Seja aqui ou dentro da sua casa. Com seus amigos ou com todo mundo que você conhece. Na mesa do bar ou com o terapeuta. E a busca por esse bem-estar emocional não tem nada a ver com cura para uma doença, afinal, não há cura para o que não é doença, como já muito se disse em 2017. Ser LGBT não é um problema psicológico é uma realidade humana e pertencimento, como falamos, tem a ver com bem-estar e o quanto você se sente livre e completo para viver, ser aceito e ser quem você quiser.

Então, por aqui, iniciamos essa conversa, compartilhamos o sentimento de respeito e convidamos a todXs a buscarem esse espaço de pertencimento e de autoconhecimento que passa pela sua contínua transformação como ser humano e pela busca pelo seu bem-estar emocional.

Por fim, em um momento pessoal, LGBTs e seus simpatizantes, como eu, vamos continuar nos reunindo e buscando espaço de reconhecimento, diálogo e respeito. A Parada segue grandiosa e você, não adepto, pode reconhecer esse fato um dia. Afinal, somos todos diferentes. Ainda bem.

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