Em um cenário de diversidade e de tanta discussão sobre identidade de gênero e orientação sexual – e suas variações, muita gente ainda se confunde ou não entende a real importância de discutirmos essas questões desde a infância. Sim, desde a infância. Afinal, sentimentos de pertencimento e o reflexo no espelho começam aí e não só depois da sua vida sexual se transformar em ativa.

É polêmico, eu sei. Nós sabemos. Mas acreditamos que se elevarmos a discussão para o nível da informação e não de se você acha isso possível ou aceitável, nos fará seres humanos mais bem preparados para relatarmos a nossa opinião. Então, mais do que discutir sobre o tema, vamos tentar transmitir ao máximo conceitos e ideias, que envolvem também o bem-estar emocional de muitas pessoas, para que enfim, você tenha sua liberdade de conclusão.

Sexo X gênero

Tecnicamente começamos por entender qual a diferença entre sexo e gênero. Sexo, refere-se às distinções biológicas e anatômicas que o corpo humano apresenta, como genitálias, seios, aparelhos reprodutivos e outros.  Pessoas biologicamente do sexo masculino apresentam pênis, do feminino, a vulva ou vagina, e intersexuais, genitálias ambíguas ou ausentes – são raros os casos, mas existem, então vamos incluir.

Gênero é quando queremos falar sobre a construção social desse sexo biológico, ou seja, refere-se a cultura de cada ser humano diante da sua sexualidade, que, por ser extremamente diversa, e é onde localizamos a confusão. Afinal, por que tantas pessoas nascem meninas e se identificam mais com o gênero do sexo oposto, no caso, meninos, e vice versa?

Rosa e azul

Voltando alguns passos, quando os pais descobrem o sexo do bebê que está por vir, o mundo começa a se colorir. A sociedade em algum momento disse que meninas nascem em seu mundo cor de rosa e meninos no azul, antes mesmo deles terem a capacidade de descobrir e dizer qual a sua cor favorita. No universo cor de rosa, o azul não entra, e vice versa. E mesmo os pais mais “moderninhos”, muitas vezes nem conseguem colorir de qualquer cor, pois existe a famosa questão social e aqueles cabelos brancos que você deve querer evitar com esse assunto.

Essa analogia proposital, foi para chegarmos a questão do universo das meninas e dos meninos que vemos desde cedo. Meninas brincando de boneca, de casinha, de arrumar a casa, de sentar direito ou com “modos”, de fazer as unhas e enfeitar os cabelos. Enquanto meninos, recebem a função de jogar bola, saber toda a escalação do seu time de futebol favorito, não chorar a toa, não ser afetuoso com outros meninos e, nem pesar, tentar cuidar da casa ou colocar um arco de estrelas no cabelo.

Mas e quando essa criança, seja ela do mundo rosa ou azul, começa a ver que nem tudo que está presente na função da sua cartela de cores é interessante para ela? E quando cuidar da casa não é tão interessante quanto jogar bola? Por que eu, membro do time azul, não posso usar o vestido tão bonito e rosa que aquela menina usa?

Pausa dramática. É, quando essas questões chegam ainda na infância – pois, não necessariamente é nesse momento. Pode ser demorar uma vida toda. Take your time. – que percebemos o quanto sexo e gênero são sim, termos muito diferentes e necessários.

Identidade de gênero

Agora que você entendeu, tecnicamente o que é sexo biológico e sobre a diferença para gênero, vamos avançar conhecendo outros termos.

Identidade de gênero é quando o mundo rosa e azul se misturam, se confundem ou se unem – escolha a sua forma favorita – é a experiência da pessoa a respeito de si mesma e das suas relações com o outro gênero, ou seja, como ela se percebe dentro do contexto social. A identidade de gênero não depende do sexo biológico, e ela pode ser binária, quando a pessoa se reconhece como homem ou como mulher, ou não-binária, quando ela se identifica com os outros tipos de gênero.

Ok, mas quais são esses outros tipos de gênero? Vamos ao miniglossário:

– Cisgênero: cis vem do latim do mesmo lado, ou seja, pessoas que se classificam como cisgêneras são  aquelas que estão de acordo com o gênero que lhe registraram ao nascer. Então, mulheres cisgêneras são aquelas que estão de acordo com o gênero registrado ao nascer, o mesmo vale para os homens; já para as pessoas intersexuais, que já explicamos aqui, elas podem se confirmar com o registro de gênero masculino ou feminino. Esse termo é também considerado o oposto a transgênero;

– Transgênero: são aqueles que não se identificam com o seu sexo biológico, mas sim com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído ao nascer. Ou seja, são pessoas que nascem com órgãos sexuais femininos ou masculinos, mas que possuem uma identidade de gênero oposta;

– Transexual: é considerado sinônimo de transgênero, mas é habitualmente aplicado a pessoas que se submeterem a mudança do seu sexo biológico por meio de cirurgia.

Vale lembrar que é incorreto afirmar que os cisgêneros são necessariamente pessoas heterossexuais, assim como os transgêneros são necessariamente homossexuais. Vamos pensar melhor nisso a frente.

Além disso, sabemos que existem outros termos e variações para o conceito de transgênero,como genderqueer, bigênero, pangênero e drag queen, mas vamos preferir, nesse artigo, abrir apenas os conceitos acima.

Orientação sexual

Chegou a hora de falar sobre o significado de orientação sexual e o porquê da heterossexualidade, homossexualidade e suas outras variações estarem inseridas nessa “categoria”.

A orientação sexual é relacionada ao lado afetivo, sexual e amoroso das pessoas. Ou seja, é o que você, homem ou mulher, define por sua atração quando o assunto é o coração e/ou o sexo, independe do sexo biológico seu ou da outra pessoa.

Vamos de miniglossário para explicar:

– Heterossexuais: atração afetiva e sexual por pessoas do gênero e sexo oposto;

– Homossexuais: atração afetiva e sexual por pessoas do mesmo gênero e sexo;

– Bissexuais: atração afetiva e sexual por pessoas de qualquer gênero e sexo;

– Assexuais: pessoas que não sentem atração por nenhum gênero e sexo;

– Pansexuais: atração afetiva ou sexual que não depende de gênero sexual ou sexo biológico.

Expressão de gênero

Aqui é quando voltamos para o mundo rosa e azul, e como ele pode se transformar na vida das pessoas. A expressão de gênero nada mais é do que a forma que você escolhe para se manifestar em público, como você se veste, como você corta o seu cabelo, quais são os seus comportamentos, quais suas características corporais e como você decide interagir com outras pessoas.

A expressão de gênero não necessariamente corresponde ao seu sexo biológico ou a sua orientação sexual, aqui vale toda forma de ser feliz e de se relacionar com seu corpo e mente. É o poder buscar o jeito que melhor te representa, que melhor atende ao seu bem-estar emocional. Mas é aqui também onde encontramos repreensão, julgamento e violência.

Ainda não entendi, pode desenhar?

Sim, vamos desenhar. Na verdade alguém já desenhou e de forma tão didática que seria um desperdício não incluir aqui:

Identidade de gênero

Bem-estar emocional e o gênero e a sexualidade

A discussão sobre gênero e sexualidade percorre todos os grupos de identidade, orientação e expressão, que comentamos aqui. Alguns mais e outros menos. Outros com mais afeto e os demais com agressividade e falta de respeito. A questão é que no fundo estamos em um mesmo barco, alguns em posições sociais mais privilegiadas que outros, mas todos tentando encontrar o seu pertencimento e a capacidade que isso tem de cuidar do nosso bem-estar emocional.

Talvez você que se considera um heterossexual e cisgênero, que se olha no espelho e consegue identificar a cor do mundo que um dia te prometeram, esteja mais à vontade com as suas escolhas. Mas em algum momento se deparou com as dificuldades de se expressar e de não seguir padrões estéticos e de comportamento que a sociedade cobra – não é à toa que mulheres-héteros-feministas também estão aí tentando lutar por um mundo que não é a cor do mundo que lhe deram que importa, mas direitos mais justos e menos opressores.

Mas devemos lembrar que os demais – que são muito mais – e que estão vivendo, além dessa questão social imposta pela sociedade julgadora a todos, um desafio ainda maior, talvez desde a sua infância, em entender qual o seu espaço no mundo, que cor ele (a) quer rabiscar, que caixinha quer pertencer, sem ser julgado, oprimido, agredido e violentado. Simplesmente garantindo o seu direito de ir, vir e, por que não, ser com respeito e compreensão.

Os tons de cinza

O mundo cor de rosa e azul as vezes se torna mais cinza quando essas dúvidas e descobertas começam a acontecer. E esse lápis de cor cinza é muitas vezes usado por pessoas da própria família, que carregam o seu preconceito e a sua inflexibilidade de ter mais afeto e respeito pelas opções dos outros.  

Então você, que de repente ainda está descobrindo sua cor favorita, ou você que se percebe como alguém que não é capaz de entender ou aceitar a cartela de cores alheia, de um adulto ou de uma criança, vocês não estão sozinho (a). Há muita gente querendo te abraçar e te ajudar a colorir o mundo; E há gente querendo te mostrar que você não precisa aceitar, você só precisa respeitar.

E se tudo continuar confuso e insatisfatório, procure a ajuda de um especialista, seja para você ou para ajudar alguém que você conhece. Há profissionais e grupos de apoio que realizam trabalhos incríveis, que disseminam a informação e que podem te mostrar o quão é importante é se sentir pertencido nessa grande caixa de cores que é ser Ser Humano.

 

Mari Soares

Mari Soares

Carioca, balzaquiana, trabalhadora de Sampa, comunicóloga, feminista, curiosa, solteira e sem filhos.
Mari Soares