Longevidade e velhice com Mirian Goldenberg

11 novembro, 2020 |

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Este artigo sobre longevidade e velhice foi inspirado pelo Zencast gravado com a antropóloga Mirian Goldenberg. Para saber mais, leia o texto completo e ouça o episódio no player acima.

No episódio dessa semana, a apresentadora Izabella Camargo conversa com a antropóloga Mirian Goldenberg sobre longevidade. Ela, que se considera uma militante, levanta a bandeira contra a “velhofobia” (também conhecida como etarismo ou ageísmo) e os estigmas em torno do envelhecimento; mostrando que nessa fase da vida há muito pra se viver e conhecer.

Nas palavras da antropóloga:

“A minha militância é de mudar o olhar sobre a velhice e não ficar vendo só o lado sombrio dela. Mas olhar nessa beleza que existe em poder viver 100 anos ou com mais plenitude, dignidade, projetos e alegria.”

Para começar o assunto: o que é etarismo?

Etarismo ou ageísmo é o mesmo que discriminação de idade, é quando alguém o trata de forma injusta por causa de sua idade. Pode ser encontrado nas atitudes, práticas e pensamentos discriminatórios, bem como nas políticas públicas que excluem a participação dos idosos.

Também pode incluir a forma como os idosos são representados na mídia: como alguém que é dependente, construindo e reforçando essas narrativas negativas sobre os idosos. Esses estereótipos caracterizam o porquê do envelhecimento ser considerado o preconceito mais universal do mundo, já que todos envelheceremos. 

Algumas opressões acontecem no cotidiano

  • A pressuposição de que o idoso não cuida do próprio dinheiro ou não pode cuidar;
  • Todo idoso é dependente ou incapaz;
  • Quando uma mulher sofre críticas por assumir o cabelo grisalho ou branco;
  • Toda vez que a sociedade se utiliza de estereótipos para definir as preferências das pessoas mais velhas (como roupas e peças íntimas predominantemente com cores pouco vibrantes); 
  • Existe um idoso típico;
  • Pessoas velhas não têm vida sexual ativa; 
  • Gastos públicos com população idosa não são considerados um investimento;
  • Aposentadoria mandatória pela idade para gerar mais espaço profissional aos jovens;

Segundo Mirian Goldenberg, em nosso podcast:

“Existe uma sociedade “velhofóbica”. A velhofobia é a violência contra os mais velhos; que não está só na sociedade, mas está em nossas casas, com violência física, verbal, financeira e maus tratos. 51% da violência praticada com os idosos é praticada pela família.”

O medo do envelhecimento pode afastar a longevidade

O medo do envelhecimento também tem nome: gerontofobia ou, mais informalmente como traz Mirian, velhofobia. A gerontofobia caracteriza a rejeição à velhice e aos que estão passando por ela.

A sociedade desde sempre exalta a juventude: há uma busca desmedida pela pele sem rugas, pelo cabelo sem fios brancos, pelo corpo torneado e tudo aquilo que não lembra a velhice. Nesse contexto, Mirian questiona:

“Por que ter tanto medo da velhice? Me explica? Cada vez mais os velhos têm autonomia, poder de escolha, lucidez.”

Com longevidade, a velhice é a fase mais libertadora da vida

No papo, Mirian exalta a falta de visibilidade feminina na fase madura (50+) e a dificuldade de envelhecer em uma sociedade que prega que as mulheres precisam ser jovens “para sempre” para serem aceitas. 

E é exatamente por isso que as mulheres mais velhas não se reconhecem nas propagandas e nos produtos que precisam consumir ou investir; sentindo-se ignoradas até por grandes marcas e vendo um impacto em suas posturas, decisões e hábitos.

Esse senso de invisibilidade passa a tomar grandes proporções na vida da mulher madura, que pode sofrer com a pressão psicológica durante essa fase que por si só já é desafiadora – e conta com a transição da menopausa, por exemplo.

Apesar dos desafios, Mirian ressalta que na velhice relação com o tempo tende a mudar, melhorando o relacionamento consigo mesmos:

Apesar de tudo, a longevidade já é uma realidade 

Dados do IBGE de 2020, mostram que a expectativa só está aumentando. Aqui no Brasil, ela chega a 76,6 anos, e em outros países, a tendência também é uma crescente.

Estamos vivenciando, também, uma era em que aqui no país, já temos mais avós do que netos. É a era da longevidade. Essa virada já está transformando a sociedade, mesmo que aos poucos, como explicou a antropóloga:

“Estamos num paradoxo: eu chamo esse século do Século da Revolução dos Mais Velhos, porque quem tá velho hoje foi quem fez a revolução do século passado. Os velhos de hoje não são mais os velhos de ontem. Então, esses velhos estão revolucionando a velhice.”

Temos que reconhecer a singularidade de cada envelhecer. O envelhecimento deve ser encarado com um processo natural, assim como é, e lembrar que é algo pelo qual todo indivíduo vai passar. E quando ele for assim aceito, exaltaremos os benefícios da longevidade como um todo. 

“Então, a gente pode ser jovem até os 30?” Não, pois assim a gente tá valorizando a juventude. Eu prefiro dizer: “a gente pode ser velho desde os 20. Os 30 são os novos 70″, quando a gente dissemina essas coisas velhofóbicas, só a juventude é bonita, ativa, sensual, interessante… Eu prefiro dizer os 30 são os novos 70! Pronto.” 

Convidado

Mirian Goldenberg

Mirian Goldenberg é uma antropóloga, escritora e palestrante brasileira. É colunista da Folha de São Paulo e participou de eventos como TEDx, além de ser professora em diversos cursos.

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