Escutar é reduzir conflitos

23 dezembro, 2020 |

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Tivemos um papo super rico com o palestrante e especialista em escutatória Thomas Brieu em nosso podcast de saúde emocional, o Zencast. Para saber mais sobre o tema, ouça o episódio no player e leia o artigo abaixo.

Comunicação cooperativa? Você deve estar imaginando que para ter uma comunicação melhor, você precisa aprender a falar melhor ou ter habilidades sociais. Mas não é bem assim! Na verdade, para se comunicar melhor, precisamos na verdade exercitar a escuta.

Então, a escutatória nada mais é que a escuta ativa que nos ajuda a desenvolver uma comunicação mais cooperativa, promovendo uma redução de conflitos.

Em sua vida profissional, Thomas desenvolveu um método que mapeia os padrões de linguagens cooperativos, que provocam aproximação, e os não produtivos, que provocam resistências. Dentro de seu estudo, levantou algumas áreas de destaque:

  • Escutatória: reconhecer nossos limites em termos de escuta para reaprender a falar de tal forma que consigamos captar a atenção do outro e promover engajamento;
  • Comunicação Produtiva: transformar palavras em ação; 
  • Foco e condução de conversas: autoconhecimento, inteligência emocional, lidar com objeções e resistências;

Argumentação e negociação em lideranças: exercício de humildade e coragem, desapego e determinação (comportamentos e atitudes esperados da liderança).

Veja como aplicar esses conceitos na prática a seguir. 

Por que a escuta tem tanta importância?

“Nós escutamos pelo corpo inteiro, não só pelo ouvido. Nós escutamos desde sempre, até na barriga da mãe nós estamos escutando e ouvimos sons das coisas à nossa volta. “

Thomas ressalta que, na modernidade, somos hiper estimulados o tempo todo. Em particular pelo lado visual. Mas essa exposição exagerada à informação nos deixou numa posição vulnerável de atenção: somos tão bombardeados que estamos, cada vez mais, agindo de modo automático. Principalmente nas conversas. 

“Estamos tão hiper estimulados, que onde tem riqueza de informação tem pobreza de atenção. Então precisamos reaprender a escutar de verdade. Reaprender a decidir o que eu quero primeiro que entre nos meus ouvidos, fazer uma curadoria. E aí fazer algo da palavra dos outros, do interlocutor. E isso, infelizmente, não é ensinado na escola, embora seja muito útil nesse mundo acelerado em que estamos; onde todo mundo está carente de ser escutado. Então, não basta escutar, preciso fazer com que o outro se sinta escutado; dar prova de escuta.”

Mas, então, como fazer o outro ser escutado?

Segundo Thomas, primeiramente, é não responder de forma automática. Ele ressalta que temos a tendência de sempre ter a resposta na ponta da língua para tudo e, cada vez que o outro se sinta ameaçado (emocionalmente, intelectualmente, etc), o interlocutor começa a se preparar para um embate.

E, quando entramos num embate, o outro não se sente escutado. Ainda assim, está tudo bem discordar do seu interlocutor. Para elevar a conversa sem que haja um embate, ele sugere:

“O segredo é primeiro acolher a história dele para depois colocar a sua. Não tem problema ser diferente. No dia a dia, o que acontece é que quando a pessoa traz uma história, a gente já coloca a nossa em cima. Sem dar essa prova da escuta, para que ele se sinta escutado. E aí entra o embate e a falta de diálogo, e a polarização.”

Segundo o especialista, os cientistas têm uma palavra para o primeiro passo que precisamos dar para ter a escuta ativa: inibição dos nossos automatismos. Quando fazemos essa inibição, damos o tempo da informação chegar até o córtex pré-frontal, acessando o raciocínio, a empatia. Assim, a comunicação pode ser mais cooperativa e efetiva:

“É aí que a pessoa vê que ela tem um monte de alternativas diferentes, do que aquelas que já estavam prontas para serem ditas na ponta da língua.”

Como dar uma prova de escuta?

Para mostrar ao outro que você realmente entendeu, é necessário dar um feedback, usando a história dele sobre as suas palavras. Então, ele é quem decide se sentiu compreendido no diálogo. Para entender melhor, Thomas exemplifica:  

“Só a própria pessoa pode dizer que se sentiu compreendida. Quando dizemos “entendi” ou “compreendi”, nós roubamos dele a possibilidade de ele escolher se foi realmente entendido ou não. E fazendo isso nós aumentamos a distância entre nós, tornando a conversa muito subjetiva e encorajamos, indiretamente, maus-entendidos.”

Sinais não-verbais também são boas formas de acolhimento (acenar com a cabeça, a conexão do olho no olho, uma postura física de “abertura”) e são todos bem-vindos num diálogo. Porém, isso não dá a garantia da atenção.

Então, fique atento:

“Concordâncias como “hmmm”, “uhum”, “entendo”,  embora possuam a intenção de demonstrar ao outro que você entendeu, não funcionam. Isso porque são palavras tão utilizadas, que elas se esvaziaram de sentido.”

E num mundo turbulento em que o excesso de informação e urgência são o modus operandi, podemos entender com facilidade o porquê essas palavras não demonstram mais uma empatia na comunicação. É preciso fazer mais.

Mas não se assuste, uma atitude simples e orgânica pode ser o caminho certo para você ser mais ativo em seus diálogos:

“Dar uma respiração antes de responder, por exemplo, é um ótimo ponto de partida: quando você se dá este tempo, o outro também repara que você deu um tempo para absorver o conteúdo ao invés de esperar educadamente o outro terminar para já trazer sua resposta. Como num monólogo. Quando você inspira, antes de responder, é como se estivesse fazendo algo com as palavras do outro. Até porque precisamos lembrar que por trás de toda emoção, há uma necessidade não atendida.

Convidado

Thomas Brieu

Franco-brasileiro, socioeconomista com especialidade em inovação e desenvolvimento. Especialista em escutatória, desenvolveu um método que mapeia os padrões de linguagens no intuito de propor alternativas cooperativas de comunicação.

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