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Fases do luto: as 5 etapas e como lidar com a perda

Escrito por Rui Brandao | 21/11/2024

Lidar com mudanças e fins de ciclo é sempre difícil. Muita gente associa o luto à morte, mas a dor do luto também aparece no fim de um relacionamento, na saída de um emprego, numa mudança de casa ou de cidade.

Cada situação é vivida de um jeito, mas conhecer as fases do luto ajuda a dar nome ao que se sente e a atravessar esse período com um pouco mais de compreensão.

Um modelo conhecido, criado pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, descreve cinco fases: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Antes de detalhar cada uma, saiba que essas fases não são um roteiro a ser cumprido em ordem e, hoje em dia, já se sabe que a vivência do luto não pode ser explicado apenas dessa maneira e que outros aspectos também compõem o luto.

A própria Kübler-Ross esclareceu isso mais tarde. O luto é individual, e você pode viver as fases fora de sequência, repetir algumas, sentir várias ao mesmo tempo, sentir coisas totalmente diferentes ou não passar por todas essas faases. Elas são um mapa das emoções possíveis, não um trilho.

As 5 fases do luto

As cinco fases descritas por Kübler-Ross em 1969, no livro “Sobre a Morte e o Morrer”, vieram de observações com pacientes que enfrentavam a própria morte, e só depois foram aplicadas ao luto por perdas em geral. Por isso, leia cada uma como uma vivência possível durante o luto e não como uma regra.

1. Negação

Também chamada de fase do isolamento, funciona como um mecanismo de defesa temporário, um para-choque que alivia o impacto da notícia. Pensamentos como “isso não pode ter acontecido, não comigo” são comuns. Costuma aparecer em quem é informado de forma abrupta sobre uma perda, mas pode surgir em outros momentos também.

Como lidar: a necessidade de se isolar é comum, e vale respeitar esse tempo. Em vez de contestar a negação de quem sofre ou forçar um discurso otimista, o mais acolhedor é ter empatia e entender o momento da pessoa, mostrando que está por perto caso ela precise de alguém. Quem está enlutado pode se permitir dar vazão à tristeza, à solidão e à inconformação, sem cobrança de si ou de terceiros para fingir estar bem. Isso apenas atrapalha o processo do luto.

2. Raiva

Ao sair da introspecção da negação, a pessoa começa a externalizar a revolta, às vezes de forma agressiva. Surgem a busca por culpados e perguntas como “por que ele?”, numa tentativa de aliviar o sofrimento. Muitas vezes essa raiva recai sobre quem está por perto, mesmo que essas pessoas não tenham nada a ver com ela.

Como lidar: é importante respeitar o espaço de quem está passando pela perda. As relações podem ficar mais difíceis nesse momento, e ajuda entender a raiva como uma parte natural do processo, não como algo pessoal.

Sentir raiva não significa que a pessoa sairá descontando seu descontentamento em terceiros ou em si mesmo, mas saiba que isso pode acontecer e, com isso, comportamentos mais reativos podem surgir.

3. Negociação

Aqui aparecem os pensamentos de que as coisas poderiam voltar a ser como antes, e a pessoa tenta “negociar”, consigo mesma ou com algo em que acredita, para que isso aconteça.

É uma forma de adiar o confronto com a realidade. Em casos de morte, esses acordos costumam ser direcionados a Deus; num fim de relacionamento, podem aparecer como tentativas de reatar algo que já acabou. em outros tipos de luto, podem haver tentativas de “compensar” ou “olhar o lado positivo” da perda.

Como lidar: por trás da barganha costuma estar a culpa de achar que se poderia ter feito algo diferente. Negociações mal sucedidas também podem causar raiva, tristeza etc. Reconhecer isso ajuda a tirar esse peso e a perceber que ficar preso ao “e se” é ficar preso ao passado.

4. Depressão

É quando a pessoa começa a lidar de verdade com a perda, e o luto costuma ser sentido de forma mais intensa. Kübler-Ross falava em dois tipos: a depressão reativa, ligada às perdas que vêm junto (como um papel na família ou uma consequência prática), e a depressão preparatória, mais silenciosa, em que a pessoa processa o que viveu e se aproxima da aceitação.

Como lidar: essa tristeza profunda é uma parte natural do luto e não é, por si só, uma doença. Mas ela pode se aprofundar. Se a tristeza persistir, tomar conta de tudo e não der sinais de alívio com o tempo, pode ser um quadro de depressão ou de luto prolongado que pode se beneficiar de apoio psicológico. Só um psicólogo ou psiquiatra consegue avaliar essa diferença.

5. Aceitação

Na última fase, a pessoa lida com os próprios sentimentos de forma mais serena e consegue expressar melhor emoções, frustrações e dificuldades. Aceitação não significa “ficar tudo bem” com a perda ou se render ao que aconteceu, mas sim conseguir conviver com ela enquanto vive a própria vida e a rotina. A saudade continua presente, mas deixa de ser um peso incapacitante ou presente o tempo todo.

Como lidar: aqui, o caminho é ir percebendo que a perda é permanente e que dá para seguir a vida carregando a saudade de um jeito mais leve. Quanto mais espaço a pessoa deu aos sentimentos ao longo do processo, ou seja, quanto menos tempo ela passa tentando se esquivar dos sentimentos associados ao luto, mais fácil tende a ser chegar até aqui.

Todo luto passa por essas 5 etapas?

As cinco fases ajudam a nomear emoções, mas o luto real não segue uma ordem fixa. A própria Fundação Elisabeth Kübler-Ross, mantida pela família de Kübler-Ross, confirma que ela, mais tarde, lamentou que o modelo tivesse sido lido como um roteiro, e explicou que as fases se sobrepõem e nem sempre aparecem todas.

A ciência mais atual reforça isso. O Modelo do Processo Duplo, dos pesquisadores Margaret Stroebe e Henk Schut, descreve o luto saudável como uma oscilação: ora a pessoa se volta para a dor da perda, ora se ocupa de reconstruir a vida no dia a dia. Esse vai e vem, inclusive as pausas da dor, é justamente o que ajuda o indivíduo a se adaptar ao luto.

Além disso, estudos de longo prazo do psicólogo George Bonanno mostram que a resposta mais comum ao luto é a resiliência: a maioria das pessoas sente uma dor real, por vezes até com sintomas físicos (sono, cansaço, dores de cabeça, falta de apetite) mas consegue, aos poucos e do seu jeito, seguir em frente. Ou seja: se o seu luto não se parece com uma das cinco fases descritas acima, não há nada de errado com você.

Cada pessoa lida com o luto à sua maneira, e o mais importante é acompanhar se esse processo está caminhando para uma boa resolução, onde é possível conviver com a perda sem se tornar refém dela.

O luto é apenas para pessoas que morreram?

Não, o luto não é só pela morte de alguém. Ele aparece em qualquer perda significativa, como o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, uma mudança de cidade ou o encerramento de um ciclo importante da vida. A intensidade muda de caso para caso, dependendo do nível de importância da coisa para a pessoa, mas o processo de adaptação é parecido, e merece o mesmo cuidado.

Quando o luto se prolonga, é um problema?

Na maioria das vezes, a dor do luto vai perdendo força com o tempo, mesmo sem desaparecer. Mas, em alguns casos, ela trava. Quando o sofrimento intenso se mantém por muitos meses, sem alívio, e impede a pessoa de tocar a vida, pode ser um quadro de luto prolongado, hoje reconhecido como transtorno pela Organização Mundial da Saúde na CID-11 (código 6B42) e também pelo manual DSM-5-TR.

Não é “fraqueza” nem “falta de superação”: é um sinal de que a pessoa precisa de apoio profissional.

Sinais de alerta incluem saudade e dor constantes que não cedem, dificuldade de aceitar a perda por muito tempo, afastamento das atividades e das pessoas e, em alguns casos, pensamentos de que a vida perdeu o sentido.

Se esses pensamentos incluírem se machucar ou não querer mais viver, procure ajuda agora: o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende de graça e em sigilo, 24 horas por dia, pelo telefone 188. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo.

Receba ajuda no seu processo de luto

O apoio psicológico ajuda a compreender a perda e a se adaptar à nova realidade. Falar de luto ou de morte ainda é um tabu, então é um assunto pouco conversado nas famílias e na sociedade em geral, e por isso, quando ela chega, costuma vir acompanhada de muitas angústias e da necessidade de falar sobre o que se sente. A terapia é esse espaço de escuta, sem julgamento, onde a ansiedade, a culpa, as mágoas e os rancores podem ser acolhidos e ressignificados.

Se você está passando por uma perda, não precisa atravessar isso sozinho. No Zenklub, você encontra psicólogos e terapeutas para sessões online, no seu tempo e do seu jeito, prontos para caminhar com você. Conheça os profissionais e agende a sua sessão.

Referências consultadas