Enfim, habemus Copa do mundo! Um dos momentos mais festivos do esporte e com ele os sites de notícias se enchem de matérias sobre a seleção brasileira, os gols do CR7 (Cristiano Ronaldo, para os leigos), a confraternização das nações, a alegria das torcidas e o vídeo dos brasileiros “brincando” com uma mulher estrangeira usando termos de baixo calão. Opa, não, pera. Isso faz parte da Copa? Pois é, não deveria. Brasileiros envergonhados, opiniões diversas sobre o assunto e o principal, cadê o respeito?

Hoje a nossa conversa vai abordar sobre esse tema polêmico, discutir a importância do entendimento do caso e pensar sobre o significado de respeito ao outro e o quanto isso interfere no bem-estar emocional das vítimas.

A Copa do Mundo é nossa!

O fenômeno Copa do Mundo é um momento muito esperado por atletas e cidadãos de diferentes países. O evento organizado pela FIFA teve a sua primeira edição no Uruguai, em 1930, e a competição é fruto do sucesso do antigo Torneio Olímpico de Futebol, realizado pela própria FIFA na França em 1924. A cada quatro anos, como todos bem sabem, essa competição se espalha pelo país sede eleito pela FIFA, que tem como função receber jogadores e torcedores do mundo inteiro, e proporcionar os espaços ideais para a realização dos jogos.

2014 no Brasil, foi uma grande festa, mesmo com um resultado nada favorável, – jamais esqueceremos aquele 7 a 1 – fizemos bonito no quesito animação, recepção e cumprimos o nosso papel. Ok, sabemos dos gastos absurdos e o quanto o Brasil precisava investir mais em saúde, educação e segurança (etc), do que em estádios de futebol. Agora, em 2018, a Rússia recebe a competição e se apresenta ao mundo como o grande foco desses próximos 30 e poucos dias de Copa.

Cada passe é um flash

Em 1930, na primeira edição, poucos puderam acompanhar o desempenho dos seus países durante a competição. Nessa época não tinha televisão (!) e, segundo dados de estudos, pouco mais de 434 mil pessoas tiveram o privilégio. Em 2002, com toda a tecnologia a seu favor, a Copa do Mundo conseguiu alcançar mais de 2,5 bilhões de espectadores. Em 2018, espera-se o recorde de 3,4 bilhões de espectadores.

2018. Estava indo tudo muito bem no Brasil, estávamos falando nas redes sociais sobre o empate do primeiro jogo, as quedas do Neymar virando meme, os trocadilhos com o nome do técnico Tite, a eterna implicância com o narrador da Globo, Galvão, e a beleza do nosso goleiro, Alisson. Até que um vídeo invadiu as redes. Brasileiros se reúnem em torno de uma mulher estrangeira e a incentivam a repetir termos de muito baixo nível – não sou obrigada a repetir – que falavam sobre as suas partes íntimas.

Pronto. O circo estava armado e as notícias mudaram de foco. Os brasileiros, independente da opinião, compartilharam e comentaram as atitudes dos rapazes. Mas aqui é internet, bebê! E se você achou que isso ia ficar entre nós, brasileiros, você estava enganado. Ainda mais por se tratar de uma atitude – desculpe, mas a autora deste artigo não consegue chamar de brincadeira – desrespeitosa, independente das circunstâncias do momento, que envolve uma pessoa do sexo feminino. E será que eu preciso te lembrar do quanto o tema feminino está sendo conversado no mundo inteiro? Então, poucos dias depois, o assunto chegou a rede desses outros bilhões de espectadores que mencionamos acima.

Eterno 7 a 1

Este artigo não está correndo atrás de pesquisas que apontem a preferência na nomenclatura do que significou a atitude desses brasileiros do vídeo. Por aqui, não levamos na brincadeira e queremos observar o fato que aconteceu, independente da justificativa – prefiro chamar de desculpa esfarrapada – que os cidadãos em questão deram aos seus espectadores.

Exagero, palhaçada, mimimi, feministas, frequentaram o vocabulário de quem achou a repercussão além da conta. Machismo, sexismo e misoginia, já fizeram parte do vocabulário de quem repudia o ato. E se talvez ela fosse uma mulher e negra, teria sido atingida com palavras racistas? Negra e gay…não quero nem pensar.

O que importa de verdade, é que depois de anos, descobrimos que existe no dicionário, palavras que trazem significado a atitudes como essa. Na Copa de 94, talvez, isso realmente fosse só uma brincadeira, sem um nome específico, mas estamos em um novo século e alguém resolveu ler o dicionário e contar para todo mundo que a sua brincadeira tem nome e que ela fere pessoas, desrespeita.

Dicionário do desrespeito

Pensando em ajudá-los (las) a não verbalizarem termos equivocados por aí e também te ajudando a definir o que você viu na internet essa semana, aqui vai um miniglossário:

Feminismo: movimento social e político de construção de igualdade de gêneros;

Feminicídio: refere-se aos crimes de ódio contra mulheres de qualquer idade, pelo simples fato de serem do sexo feminino;

Masculinismo: movimento sob perspectiva dos homens que busca a igualdade entre o homem e a mulher, defendendo os direitos e as necessidades dos homens, assim como os valores e atitudes consideradas como tipicamente masculinas;

Machismo: quando você homem acredita que as mulheres são por natureza seres inferiores a você.

Mansplaining: quando você homem explica, de maneira condescendente, algo a uma mulher, acreditando que sabe mais do que ela;

Misoginia: é o ódio ou aversão a mulheres e meninas, expresso através de violência física e psicológica;

Objetificação: quando você reduz uma pessoa à condição de uma coisa;

Objetificação sexual: limitar as qualidades das pessoas aos seus atributos sexuais e a sua beleza física;

Sexismo: quando há discriminação das pessoas em razão do sexo, qualquer sexo;

As consequências

Além da repercussão e julgamento moral mundial, as consequências dos atos dos brasileiros tomaram outras proporções. Merecido? Faça você a sua avaliação.

Um dos homens era policial militar em Lajes (SC), e o órgão informou que vai abrir processo administrativo disciplinar para apurar se a conduta foi irregular, já que considerou o vídeo “incompatível com a profissão e o decoro da classe, previsto no regulamento disciplinar”.

Para o outro, advogado em Recife, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) publicou carta de repúdio ao seu comportamento e disse: “A atitude preconceituosa causa vergonha para todos nós brasileiros e vai na contramão do atual contexto de luta contra a desigualdade de gênero”

E para o terceiro identificado, engenheiro, que já atuou também em órgãos públicos, o Conselho Regional de Engenharia (CREA) emitiu uma nota afirmando considerar a atitude lamentável e vergonhosa e frisou que a engenharia contempla “a promoção da segurança, da qualidade de vida, da sustentabilidade, da proteção aos valores mais caros da experiência profissional”.

Em outro vídeo – pasmem! Tem outro. – um dos identificados era funcionário da companhia aérea LATAM que imediatamente se pronunciou sobre o caso e demitiu a pessoa em questão, por meio de nota.

Achou suficiente? Para você pode até ser, mas será que para essas vítimas foi?

Respeito e bem-estar emocional

As estrangeiras dos vídeos em questão não foram as primeiras pessoas e nem serão as última a serem objetificadas, desrespeitadas e vítimas de atos como esse. Mas nós precisamos sim usar esse caso, para dizer que isso acontece, na Copa e em todos os outros momentos, e que é necessário discutirmos sobre o assunto. Pois não é possível, que dentro de tanta diversidade humana, ainda haja casos de preconceito, sexismo e homofobia.

As pessoas que sofrem este tipo de assédio moral – as vezes é físico também, ficam marcadas para sempre e tenho certeza que você agora irá parar para pensar na figura dessas mulheres como seres humanos e o quanto elas devem estar sentindo diante de tamanha repercussão das suas imagens diante do ocorrido. E para o Mundo todo.

O respeito não envolve só as mulheres, mas sim a todos. Cada qual tem a sua nomenclatura como você pode perceber e esses problemas atingem de maneira diferentes o nosso “eu-pessoal” e assim como já conversamos sobre o tema de racismo por aqui, sabemos o quanto isso pode deixar rastros emocionais durante toda a vida. E não é mimimi. É vida real mesmo.

Haja coração

Agora que você já viu que a Copa é a mistura de etnias, cores e idiomas; que se tá na internet, bilhões de pessoas poderão ver e te julgar pelos seus atos; que suas ações podem sim ser ofensivas e que já temos nomes para elas; e que muito pior do que perder de 7 a 1 em campo, é ver nossos compatriotas envergonhando nosso país, já tão exibido por outros problemas, como a corrupção.

Queremos lembrar que a Copa só está começando e que dia 19 de julho ela termina (ahhhhhh). Será que vamos aprender com nossos erros e evoluir para um comportamento melhor ou será que na Copa de 2022 (no Qatar) ainda estaremos falando sobre a falta de respeito do ser humano com o próximo?

Como diz o Galvão, HAJA CORAÇÃO!

Mari Soares

Mari Soares

Carioca, balzaquiana, trabalhadora de Sampa, comunicóloga, feminista, curiosa, solteira e sem filhos.
Mari Soares